Alto Alentejo, Gavião, Lendas

A lenda das Santas Relíquias de Belver – Gavião

Houve um dia em que fizeram as Santas Relíquias de Belver rumar a Lisboa. O que aconteceu depois não deixou dúvidas a ninguém

Vem dos tempos em que a Cristandade cruzava contra o Infiel pela salvaguarda do legado de Jesus Cristo a lenda das Santas Relíquias de Belver.




Muitos iam para a Terra Santa e não voltavam. Outros vieram e se tornaram Santos. E muito se trouxe de milagrosa devoção daquelas terras da Palestina.

Ora os cavaleiros Hospitalários de Belver retornaram das Cruzadas com um precioso acervo de relíquias sagradas, tão precioso que é quase inacreditável.

O Padre João Baptista de Castro fez destas, em 1870, um rol minucioso “parte do santo presépio, em que Cristo Senhor nosso nasceu; parte da mesa, em que instituiu o Santíssimo Sacramento; um pedaço do Santo Lenho, e do Santo Sudário, e porção de terra do Monte Calvário; um vaso de marfim do feitio de uma caixa grande de hóstias, em que a Santa Magdalena levou o odorifero balsamo, com que ungiu os Sacrosantos pés do Redemptor do mundo; gotas do virginal leite de Maria Santíssima; um dos seus preciosos cabelos; bocadinhos daquela pedra, em que descansou no caminho do Egipto, e terra do seu glorioso sepulcro: relíquias de S. Joseph, de S. João Baptista, e dos Santos Inocentes: da sepultura de Lázaro: cabelos de Santa Magdalena: da anfora de S. Paulo Apóstolo: do cilício de S. Thomé: da pele de S. Bartholomeu, ossos de Santo Estevão, de S. Sebastião, de S. Arcádio, e de S. Cyriaco: o dedo index da mão direita de S. Braz, carne de S. Antão e de S. Arsénio: da cabeça de Santo Albino: relíquias de Santa Margarida, de S. Salvador monge, da capa de S. Domingos, e outras de vários Santos”.

O tão precioso tesouro sagrado da Palestina foi então colocado num cofre de pau-santo, chapeado a prata, na capela de S. Brás, dentro de muralhas do Castelo. E aí se iniciou o seu culto.

Mas, como em outras histórias que se contam, um nobre cavaleiro que poderia ter sido D. Luís, filho do rei D. Manuel I e Grão-mestre da Ordem do Hospital, achou ser afastado o local em que as relíquias se encontravam. E logo ordenou que havia que transportá-las para um templo de Lisboa, onde seriam mais facilmente exibidas e estariam ao alcance de todos os crentes.

Dada a ordem, aparelhou-se então, sem mais demora, uma barca com todas as galas devidas à valiosa transferência. E nela vai o cofre com as preciosas relíquias Tejo abaixo em direção à capital do Reino.

Com a tranquila serenidade de quem chega ao seu destino, tentam os barqueiros aportar junto aos limites do Paço da Ribeira.

Mas - milagre só poderia ser - perante o assombro de todos, toca a nave milagrosa a subir o rio contracorrente, com a sua preciosa carga, mau grado os esforços dos tripulantes.

Ouvem-se cânticos celestiais, a barca está toda iluminada e a espantosa história corre de boca em boca, junto com o povo que segue o milagre.

Tejo acima, voga a nave esplendorosa e imobiliza-se não muito longe do Castelo de Belver. Aqui estou, parece querer dizer suavemente, ondulando sobre as águas.

E ingratas foram todas as tentativas de a trazer para junto da margem. Tentavam os da barca, tentavam os de terra e nada. Suave ficaria, até que viessem as galas que merecia.

Só quando o pároco do castelo se aproxima com as gentes em procissão, é que consegue tomar o cofre e transportá-lo para a capela de onde viera.

O povo ajoelhou e rezou. A fama do acontecido logo corre rio abaixo e o cavaleiro que ordenara a sua transferência, para se fazer penitenciar pela sua audácia, logo manda que seja construído um valioso retábulo de madeira com nichos para a capela.

Nas figuras destes nichos foram guardadas as Santas Relíquias juntamente com várias jóias. Para as salvaguardar de todas as cobiças, o Infante mandou ainda colocar em frente do notável retábulo, uma forte grade de ferro. E o culto continuou, cada vez mais fortalecido.

O tesouro sagrado, diz-nos a história, várias vezes foi levado no seu cofre para a igreja Matriz de Belver “por ser aí mais fácil conservá-lo e admirá-lo”, voltando sempre misteriosamente para o retábulo de S. Brás.

É daí, quando das Invasões Francesas, que são roubadas algumas relíquias, juntamente com as jóias e as mãos das figuras.

As que restaram estão guardadas na Igreja Matriz de Belver, donde saem todos os anos em procissão no mês de Agosto no cofre que sempre as acolheu.

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