Alentejo, Alentejo Central, Évora

Silêncio que se vai visitar o Mosteiro da Cartuxa

Pela primeira vez, o Mosteiro da Cartuxa, em Évora, é visitável e só até final de setembro. Em silêncio, porque esse era o voto dos monges que aí viveram.

São oito da manhã. Pontual, o sino que diariamente os monges cartuxos tocavam, volta a ecoar. A porta abre-se para um mundo até então proibido e para um universo de que o comum dos mortais nada conhece.

Por iniciativa da Fundação Eugénio de Almeida, o mais inacessível dos conventos portugueses pode ser visitado ao fim de semana até final de setembro. Com visita guiada ou livremente. Aconselhamos vivamente a primeira.

Convento da Cartuxa, em Évora
A fachada da igreja não indicia o despojamento do interior

O arquiteto Luís Ferro, autor de um estudo sobre o mosteiro, é o cicerone de um mergulho de duas horas pelo modo de vida dos monges cartuxos. Uma visita que deve ser vivida em silêncio, porque era em silêncio total que o Mosteiro da Cartuxa era vivido pelos eremitas de hábito branco.

Uma chave todas as portas

A chave cartusiana

É uma chave muito especial aquela que todos os monges cartuxos recebem quando ingressam na Ordem. É uma chave que não se roda para abrir a porta, mas antes que aciona o mecanismo movendo-se verticalmente.

E com ela, cada monge consegue não apenas abrir a porta da sua cela, mas qualquer porta que exista no convento.

Verdadeiramente, esta chave é um símbolo muito forte, porque permite abrir qualquer porta de qualquer convento cartusiano. Assim, os monges que saíram de Évora continuaram a sentir-se em casa ao chegaram à sua nova morada. Bastou-lhes usar a chave que levavam no bolso para franquear o novo espaço

O que mais fundo cala é o imenso eremitério, o maior de Portugal, que alberga as celas monásticas e o despojado cemitério. Até 31 de outubro de 2019, os monges apenas saiam do isolamento total três vezes por dia para rezarem em comum na igreja. Este é um espaço de silêncio, onde os passos ecoam.

As celas são pequenos apartamentos com um jardim interior. Era apenas neste jardim que cada monge podia exprimir a sua individualidade, com as plantações que fazia. Todos os outros aspetos da sua vida eram dedicados à contemplação e ao estudo. Até na morte, o monge cartuxo não tem individualidade, sendo colocado na terra sem nome.

As celas do Mosteiro da Cartuxa são pequenos apartamentos

Os monges abandonaram Évora em 2019. Eram apenas cinco, todos com mais de 80 anos. Para um mosteiro cartuxo funcionar precisa, no mínimo, de sete monges, porque sete foram os fundadores da Ordem.

O Mosteiro da Cartuxa em Évora conheceu as vicissitudes da história. Fundado no final do século XVI, viu a sua fachada bombardeada pelos franceses. Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, teve vários usos até ser comprada pela família Eugénio de Almeida. Em meados do século XX, o conde de Vilalva recupera o edifício e devolve-o à Ordem dos Cartuxos. Entre 1960 e 2019 voltou a ser um lugar de silêncio e recolhimento.

Sendo uma das várias ordens de eremitas existentes no Alentejo, os cartuxos foram a que mais entrou no imaginário, talvez por ter sido a única que perdurou até ao século XXI. Franquear as portas até então sempre fechadas é um privilégio.

O arquiteto Luís Ferro é um guia apaixonado, e é por ele que ficamos a saber que o padre Antão, um dos últimos cartuxos de Évora, dizia que lá fora é que era a prisão, o interior era um espaço de liberdade. Porque os eremitas sentiam que ao renegarem o mundo e o convívio – mesmo com os seus pares – tinham ganho a liberdade de dedicarem toda a sua vida à meditação, ao estudo e à oração.

Em outubro, a porta do Mosteiro de Santa Maria Scalla Coeli, tal é o seu verdadeiro nome, volta a fechar-se. Já sem os monges cartuxos, será a partir de então a casa das irmãs do Instituto das Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará.

Esta é, pois, uma oportunidade única.

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