Alto Minho, Lendas, Melgaço, Norte

A lenda de Inês Negra – Melgaço

Onde se conta a história de Inês Negra, uma mulher guerreira que representa as mulheres anónimas que lutaram por Portugal.




D. João I, o primeiro rei português da Casa de Avis, havia derrotado os castelhanos que pretendiam o trono de Portugal na batalha de Aljubarrota em 1385, mas anos depois, havia ainda no país algumas povoações ocupadas que resistiam ferozmente às investidas dos portugueses.
Três anos depois da Grande Batalha, ainda Melgaço estava por Castela. E era então a única povoação no território do Alto Minho que mantinha ainda uma guarnição e um alcaide castelhano: Álvaro Paez de Souto Maior. Não era de admirar, já que a vila estava bem fortificada e, diz-nos Fernão Lopes, “era cercada sem arrabalde, com bom muro e forte castelo”.
D. João resolveu então vir pessoalmente com as suas tropas para tomar a vila, instalando aí um arraial. Acompanhava-o a rainha D. Filipa de Lencastre, com que casara no ano anterior e que se recolheu durante o cerco no Mosteiro de Fiães.
Entre meados de Janeiro e princípios de Maço de 1388, o rei tentou debalde conquistar a vila, chegando a construir uma torre móvel de madeira para o efeito. As escaramuças entre as partes em guerra eram constantes.
O assédio dos portugueses a Melgaço durou 53 dias e as forças castelhanas, que lutavam arduamente, estavam esgotadas de gente, mantimentos e água.
D. João I mandou então o Prior do Hospital a parlamentar com o inimigo, exigindo a devolução da Praça de Melgaço e que os ocupantes abandonassem o castelo apenas com a roupa que traziam no corpo.
Foi desta situação, que se transformou em vitória portuguesa que surge esta lenda da Inês Negra, que se junta assim a outras de portuguesas guerreiras e patriotas.
A vida das mulheres em tempo de guerra era dura, especialmente em zonas de fronteira. Os homens partiam para cercos e combates e eram as mulheres que dirigiam, com mão de ferro, as zonas que ficavam à retaguarda da guerra. Em caso de invasões, logo os residentes tomavam partido por um outro lado, dividindo famílias inteiras.
Diz-se que a mulher que ficou conhecida por Inês e cuja “história” foi descrita pelo cronista Duarte Nunes de Leão era uma mulher do povo, provavelmente originária da Praça de Melgaço e que terá saído desta, aquando da ocupação castelhana, vivendo no arraial militar que cercava as muralhas da vila. Tinha por inimiga figadal uma outra mulher de Melgaço a quem chamavam Renegada ou Arrenegada por se ter passado para o lado castelhano.
A lenda conta que, por ocasião do envio do parlamentar à vila, após os longos dias de cerco, a Arrenegada surgiu no topo da muralha e exortou Inês para que com ela combatesse, e assim se resolvesse a contenda.
El Rei D. João terá ficado espantado com esta reviravolta, mas, vendo nos olhos de Inês toda a fúria e ódio contidos contra a traidora, logo deu ordem para que lhe fosse fornecido tudo o que precisava para a batalha.
A Arrenegada desceu da muralha e de espadas na mão, começaram a luta. Cada uma era apoiada pelos gritos de ânimo dos respetivos apoiantes, que formavam círculo em volta das combatentes.
As duas mulheres atacavam e defendiam com toda a sua força, o som do chocar das espadas elevando-se acima dos clamores da assistência.
Um berro soou de repente! A Arrenegada traidora, com um golpe fortíssimo, faz saltar a espada das mãos de Inês. Esta, furiosa e sem perder tempo, logo ali agarrou numa forquilha que estava à mão e atacou a oponente. A espada da Arrenegada era agora um peso excessivo, pelo que logo a largou e armou-se de um varapau e atacou.
A luta tornou-se então mais próxima e as duas caíram na terra, rebolando no chão, numa luta corpo a corpo, com unhas e dentes e tudo o mais que podiam.
No meio da confusão de gritos e poeirada, já nenhum dos assistentes à contenda percebia o que se passava. A cena acalmou então e um silêncio interrogativo instalou-se. Quem teria ganhou a luta? Inês pelos portugueses ou a Arrenegada pelos castelhanos?
Levantaram-se então, fugindo a Arrenegada coberta de sangue, pó e quase sem cabelos, completamente humilhada pela Inês Negra que exibia nas mãos ensanguentadas madeixas da cabeleira da inimiga.
Levantou-se logo ali um clamor geral de vitória por parte dos portugueses. E o cronista Fernão Lopes diz na Crónica de D. João I que, nesse dia, “escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da vila e outra do arraial, e andaram ambas aos cabelos e venceu a do arraial”.
Certo é que, da Arrenegada, nem o nome ficou para lenda, enquanto a Inês Negra entrou para os anais das heroínas portuguesas.
Diz-se que, ganha a batalha, quis El Rei D. João I agraciar a guerreira. Inês recusou, respondendo-lhe que se sentia recompensada pela sova que dera à inimiga e por ter, orgulhosamente, ter reconquistado Melgaço para a Coroa Portuguesa.
Os castelhanos derrotados abandonaram Melgaço, levando apenas a roupa que tinham no corpo e, na torre de menagem do Castelo, voltou a ser gloriosamente hasteada a bandeira de Portugal.

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