Celorico de Basto

A lenda do castelo de Arnóia ou do exército que o não era

Era uma vez a história do castelo de Arnóia, ocupado pelos mouros em Terras de Basto, e do estratagema engendrado pelos cristãos para o tomar.

No alto do monte, ergue-se o castelo de Arnóia. Pequeno, não deixa por isso de ser uma forte posição militar, alcandorado que está no topo de um íngreme cabeço. Românico, foi construído entre os séculos X e XII. Mas terá sido mesmo assim?

Conta a lenda que nos tempos em que os exércitos cristãos pelejavam para conquistar um país, viram no castelo de Arnóia um osso duro de roer. Aqui, nas terras que hoje são de Celorico de Basto, os mouros optaram por se instalar em Arnóia, posição que muito melhor se poderia defender do que os altos das serras do Ladário e do Viso.

Por lá andava o emir e os seus soldados, saindo do castelo para impor a sua lei nos povos em redor. Há medida que foram tendo notícia do aproximar das hostes cristãs, menos afoitos se mostravam a cavalgar pelos montes e vales daquelas terras férteis.

Ao Tâmega, já só chegavam pelos túneis que ligavam a fortaleza ao rio, a qualquer coisa como uma dezena de quilómetros de distância. Não é que fossem cobardes, estes mouros. Não era a falta de desejo de lutar que os tornava cautelosos, mas antes a certeza da vitória se permanecessem protegidos pelas muralhas.

Os cristãos vinham de norte escorraçando os mouros. Emboscando, assaltando, cercando cada ninho de infiéis que encontrassem. Os tempos que levavam de peleja tinham diminuído o seu exército, que já não era muito grande à partida. Quando chegaram às Terras de Basto, constataram que estavam perante um problema grande.

Tomar o castelo de Arnóia com um assalto frontal estava fora de questão, tal seria o custo em vidas humanas e a incerteza da vitória. Fosse séculos mais tarde, enviariam um avião com a bomba grande para resolver o assunto. Mas não apenas os tempos eram outros, como outras eram as gentes e a guerra era para ser feita com honra, mesmo contra o infiel.

O senhor das hostes cristãs, de que não chegou notícia do seu nome, reunião os seus melhores para encontrarem uma solução. Do seu acampamento, viam, ao longe, o castelo de Arnóia no cimo de um monte cónico.

“Não oferece este terreno proteção aos nossos homens”, disse. “Os que conseguirem subir o cabeço e chegar às muralhas não terão já as forças para expulsar os mouros”.

O problema era grande, mas a solução simples e ao alcance. Pelos montes e vales em redor, grandes rebanhos de cabras pastavam pachorrentamente.

Houve então quem tivesse a grande ideia. E se…

Tida a ideia, foi só pôr mãos ao trabalho. Uns juntaram o gado, outros foram buscar velas, outros cordas. Ao anoitecer, estava tudo pronto. Agora era só esperar.

No castelo, os mouros iam ficando cada vez mais nervosos. “Então e os cristãos, não atacam? Que esperam eles, mais homens?”. As horas foram passando e a terra cobria-se de silêncio.

Já era madrugada alta quando o chefe cristão deu o sinal. Com uma vela acesa atada em cada corno, as cabras começaram a andar. O barulho dos chocalhos era quase ensurdecedor, tanto eram os animais.

No castelo, as sentinelas dão o alerta e o emir corre à muralha. O que vê deixa-lhe o sangue gelado. Por aqueles vales e montes, um exército tão grande como nunca vira outro dirige-se para o castelo de Arnóia, vindo de todas as direções. Eram muitos os soldados, todos com archotes, e bem equipados, que se conseguia ouvir bem o chocar do ferro das armaduras enquanto andavam.

Só havia uma coisa a fazer. Fugir. Sair todos e sem demora, antes que os cristãos chegassem às margens do Tâmega e ao fim do túnel.

E assim, ainda antes do sol nascer, os mouros fugiram pelos túneis e os poucos cristãos tomaram o castelo inexpugnável apenas à custa da astúcia.

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