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Os vinhos, o Marquês e as lendas da Quinta do Gradil

A Quinta do Gradil é uma das mais antigas herdades do Cadaval e da Região Vitivinícola de Lisboa, onde se destacam o belo palacete e a capela. Nos idos de 1760 comprou o Marquês de Pombal a quinta, situada entre a serra de Montejunto e o mar, a cerca de 50 km de Lisboa, que já tinha cultivo de vinha. No final dos anos 90, já deste século, a propriedade passou para as mãos de Luís Vieira, neto e filho de comerciantes de vinho, e hoje “é o ex-libris do grupo Parras e a nossa marca de ‘charme’”, diz.

O economista Luís Vieira tem o vinho no sangue: aos cinco anos caiu dentro de um depósito e quase morreu afogado. Foi salvo pela rápida intervenção de um colaborador do avô. Há muito que a família se dedicava ao comércio de vinho, tendo também outros negócios, mas só em 2000, depois de Luís adquirir a Quinta do Gradil é que começaram a produzi-lo.

As vinhas da Quinta do Gradil
120 hectares de vinhas

Em torno do Gradil construiu um grupo que é atualmente um dos maiores do setor vitivinícola nacional, com uma produção de cerca de 15 milhões de unidades oriundas de sete regiões – Lisboa, Alentejo, Douro, Tejo, Dão, Verdes e Península de Setúbal. A Parras Vinhos aposta na segmentação de projetos e marcas construindo cada vinho, bem como o marketing, imagem e comunicação, de acordo com o público a que se destina.


Na Região de Lisboa, desde 2010, o grupo é também responsável pela exploração da parte vitivinícola da histórica Casa das Gaeiras, na sub-região de Óbidos, “onde a aposta é nas vinhas velhas e em produtos mais ao estilo ‘Velho Mundo’”, afirma Luís Vieira. As vinhas foram melhoradas para aproveitarem todo o potencial das vinhas velhas da propriedade, fundada em 1790 por António da Silva Pinheiro, médico do reino e administrador do real Hospital das Caldas da Rainha. Nos anos 40, o enólogo José Ferreira Pinto Basto entrou para a família e deu um grande incremento aos vinhos Gaeiras, que chegaram a ser famosos, nacional e internacionalmente, principalmente o branco da casta Vital.

A Quinta do Gradil tem 120 hectares de vinhas plantadas com 22 castas nacionais e internacionais e a Casa das Gaeiras possui 40 hectares de vinha, sendo maioritariamente vinhas velhas e de castas autóctones.

Enoturismo para todos

Quinta do Gradil, Cadaval
O palacete e a capela da Quinta do Gradil vão ser recuperados

Numa primeira fase, no Gradil, Luís Vieira recuperou a adega e edifícios adjacentes, onde está agora, por exemplo, a loja da quinta, e no celeiro nasceu o restaurante (que encerra à terça-feira). Todavia, o palacete e a capela, que estão em fase avançada de degradação, foram limpos e têm um plano de recuperação que deverá avançar ainda este ano ou no próximo.

Como em muitas outras quintas e herdades centenárias, a história Quinta do Gradil está recheada de lendas e estórias. Uma das principais conta que era para ali, a sua casa de fim de semana, que Sebastião José de Carvalho e Melo levava a sua (ou suas) amante(s). Lembrando esta e outras lendas que se contam sobre a quinta, o dono – homem do vinho mas apaixonado por cerveja – decidiu lançar no início de 2016 uma cerveja artesanal, a que deu o nome de Xana: “É provável que não fosse esse o nome de tão sedutora mulher. Mas poderia ter sido”, lê-se no site da Parras.

Aproveitando a história, o património e os 200ha da propriedade, que além da vinha tem também árvores de fruto tão típicas da região Oeste, na Quinta do Gradil tudo gira em torno do enoturismo. “No ano passado tivemos cerca de 5.000 visitantes, principalmente nacionais e cerca de 30% internacionais de diversas proveniências como Brasil, Inglaterra, Europa do Norte”, explica Bruno Gomes ao Portugal de Lés a Lés. “Estamos sempre abertos de segunda a sábado das 10h às 18 horas e ao domingo das 10 às 16 horas, mas recomendamos a marcação, visto que trabalhamos essencialmente com pequenos grupos, de forma a envolvermos os enoturistas numa experiência vínica”, acrescenta o responsável pelo enoturismo da quinta.

As atividades que estão disponíveis diariamente são as visitas à Quinta e as provas de vinhos, mas “estamos a desenvolver novos projetos, onde os enoturistas poderão descobrir vinhos de outras formas. Ao longo do ano realizamos ainda grandes eventos onde convidamos as pessoas a conhecerem o vinho de forma diferente, através da bicicleta, da fotografia, da gastronomia, da corrida, entre outros”, adianta Bruno Gomes.

Desde simples provas de vinho, ao percurso de um dia que inclui visita à Serra de Montejunto (num total de 20km) com paragem no topo, no Bar da Serra, para uma bucha típica da região acompanhada com vinhos Castelo do Sulco (uma das marcas produzidas na quinta), seguindo-se uma visita orientada à Real Fábrica do Gelo, e que finaliza com um jantar refeição no restaurante da Quinta, há muitas outras propostas. Como provas de vinho, com ou sem petiscos ou refeição no restaurante, bem como percursos de meio dia para ver as vinhas, a adega e o património ou para observação de aves típicas da região, como as Corujas Tyto Alba.

Claro que há também programas específicos na época das vindimas e vários tipos de ações de team building. A quinta proporciona ainda visitas de meio dia aos jardins da Casa das Gaeiras, em Óbidos, com prova de vinhos.

Parras: vinhos de sete regiões

A Parra Vinhos possui 47 marcas
O vinho, a vinha e a serra de Montejunto

A Parras Vinhos tem hoje 100 colaboradores, exporta cerca de 66% da sua produção e possui 47 marcas (incluindo referências exclusivas de clientes ou mercados), com destaque para a Quinta do Gradil, Casa das Gaeiras e Castelo do Sulco (Lisboa), Montaria e Pêra Doce (Alentejo), 370 Léguas, Stravaganza e Desafinado (Douro), Mau Maria (Vinhos Verdes), Cavalo Bravo e Cavalo Negro (Tejo), Evidência (Dão) e Flor de Tróia (Península de Setúbal), entre outras, recorrendo a produtores parceiros nas regiões onde não tem propriedades

Mas no Alentejo as regras mudaram, obrigando os vinhos Reserva a ter mais de um ano de estágio, pelo que começou a ser mais difícil haver vinho disponível, e como a região tem vindo a crescer muito em termos de vendas, o grupo decidiu comprar a Herdade da Candeeira (Redondo) em 2014. A herdade tem 190 hectares de vinha (70ha), olival e montado e para satisfazer as necessidades de produção a Parras comprou ainda a Herdade da Vigia, com água da Barragem da Vigia, onde irá plantar “mais 150ha de vinha nos próximos três anos”, para rentabilizar “a construção da adega” na Candeeira, cuja primeira pedra foi lançada em julho, que vai receber uvas das duas propriedades e também irá ter enoturismo.

Com inauguração marcada para breve está igualmente o projeto de turismo enoindustrial que a Parras está a preparar na Goanvi – a unidade de engarrafamento do grupo, situada em Alcobaça no edifício de uma antiga fábrica de fiação e tecidos, com mais de 100 anos. “Esta é uma viagem à parte não romântica do vinho”, confessa Luís Vieira, mas “será uma visita muito interessante onde as pessoas vão assistir a um vídeo sobre o ciclo do vinho, depois farão um circuito de cheiros e escolhem um dos cinco blends que teremos disponíveis e irão de seguida fazer o rótulo do seu vinho”. O percurso irá começar no exterior numa pequena área de vinha pedagógica e vai incluir também uma visita à parte de engarrafamento.

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