Castelo Branco-Naturtejo, Centro, Proença-a-Nova, Reportagem

À descoberta da história de Proença-a-Nova

É já longa a história em Proença-a-Nova. Descobertas recentes permitem datar a presença humana nesta zona do Pinhal Interior em 5.000 anos, mas os acontecimentos mais significativos aconteceram no século XIX, com a primeira invasão francesa. Partir à descoberta da história pode ser um bom pretexto para se conhecer um território de deslumbrantes paisagens.




“Uma vez houve um soldado francês que se perdeu”… Para muitos, as invasões francesas do começo do século XIX parece que foram ontem. Os exércitos de Junot atravessaram o território e durante cerca de 40 dias os habitantes de Proença-a-Nova sofreram na pele a ocupação. Os franceses pilhavam e violavam, deixando uma marca profunda que ainda hoje é sentida pelos mais velhos, como se o tivessem vivido.

Armando Tavares conta o que ouviu aos seus pais e avós
“Era uma vez um soldado francês

Mas o tempo vai suavizando e a palavra “franceses” já não sai com rancor. São mais os que recordam as histórias contadas de geração em geração. Como a do soldado invasor que se perdeu e foi ter a um lugar de Espinho Grande que tinha a particularidade de as casas terem passagem interior entre todas, e ser o local escolhido pelas gentes do povoado para esconder a comida e os animais dos franceses. Os aldeões não só não lhe fizeram mal como o entregaram ao exército. O soldado contou que tinha visto um local com muita comida, mas que tinha sido vendado e por isso não o conseguiria reconhecer. Armando Tavares, 82 anos, lembra-se de os seus pais lhe contarem o episódio e por conhecer onde tudo aconteceu, está convicto de que tudo será verdade.

Histórias de soldados que se perderam vão-se encontrando aqui e ali nas memórias dos mais velhos. Mas esta época conturbada está marcada no território. Entre Sobreira Formosa e a Ponte do Alvito há fortes e baterias de uma linha de defesa do único ponto de passagem da Serra da Talhada. Hoje, estas estruturas militares podem ser visitadas, estando sinalizado o percurso pedestre que as percorre. No seu troço final, ao pé de Catraia Cimeira, lá está o trilho das carruagens, o principal forte e mesmo a posição de bateria sobranceira a todo o vale.

Se se recuar para o início de tudo, avançamos também no território. Perto do Centro Ciência Viva da Floresta e do aeródromo conhecido como pista das Moitas estão duas antas que são os mais antigos vestígios da presença humana no que é hoje o concelho de Proença-a-Nova. Junto à aldeia de Vale das Balsas está uma pequena anta de grande significado arqueológico. Descoberta por um arqueólogo alemão em meados do século passado, foi escavada pela primeira vez em 2012 e nela se descobriam os artefactos que a permitem datar. Sabemos hoje que o homem povoa este território há já 5.000 anos.

No extremo sul do concelho de Proença-a-Nova
Ponte romana da Pracana

Continuando a descer para sul, mesmo à saída do concelho, perto de São Pedro do Esteval, encontra-se a ponte romana da Pracana. Não sendo fácil dar-se com ela, é no entanto simples de ser encontrada. Saindo da aldeia para sul, em direção a Mação, atravessamos uma ponte. Inverte-se a marcha e depois de passada novamente a ponte entra-se na primeira à direita e após uma pequena descida acessível a qualquer veículo encontra-se a ponte. Este é mais um testemunho do passado.

Aqui verificar-se-à que a geografia do concelho mudou, como se o IC8 fosse uma fronteira mais do que uma estrada. A norte, o território é montanhoso, com vários picos perto dos mil metros, e com o pinhal a predominar. Para sul, o terreno vai-se aplanando e tem já semelhanças com o Alto Alentejo.

As aldeias por que passamos estão envelhecidas e a sofrer um rápido processo de desertificação. Mas nem sempre foi assim. Júlia Cardoso Martins tem 82 anos e uma grande vivacidade. Lembra-se bem dos tempos em que todas as aldeias estavam cheias de jovens. Em Monte Fundeiro “havia muitos bailes”, lembra com um sorriso nos olhos. “Divertíamo-nos muito, cantávamos saias à desgarrada quando não havia concertina”. O seu pai tinha uma taberna que era o centro cívico do lugar. “Ele tinha um gerador para a eletricidade e comprou uma televisão. Vinha gente de todo o lado para ver a TV, era uma festa”.

Conhecer as pessoas

Em Proença-a-Nova, em todo o seu concelho, as pessoas são hospitaleiras e as histórias vão nascendo. Conhecemos D. Júlia por intermédio de Nuno Marçal, o bibliotecário que há já 10 anos se faz à estrada todas as tardes para percorrer as aldeias com a BiblioMóvel. Para muitos, o “senhor Nuno” é muito mais do que a pessoa que lhes faz chegar livros e revistas. Parte do Balcão Único da Câmara vai com ele e na BiblioMóvel também se fazem pagamentos por multibanco. Mas é também o amigo e, muitas vezes, o confidente.

Ponte filipina
A ponte na praia fluvial do Malhadal

Passemos agora ao extremo oeste do concelho. Junto à conhecida praia fluvial do Malhadal ergue-se uma ponte de um arco construída entre os finais do século XVI e princípios do século XVII. É uma estrutura filipina, assim chamada por ter sido construída durante o domínio de Portugal pelos monarcas espanhóis.

A ponte filipina e a praia fluvial podem ser um bom pretexto para se conhecerem as outras quatro zonas balneares que existem no concelho, todas de águas límpidas e muitos pinheiros no seu entorno. Aldeia Ruiva, Fróia, Alvito da Beira e Cerejeira são nomes a fixar e a visitar.

Este é o último vestígio marcante da história em Proença-a-Nova, um território que fazia parte dos domínios da Ordem do Hospital, de quem recebeu o seu primeiro foral em 1244, já com o nome de Proença. Mas a terra era conhecida como Cortiçada, não se sabendo se por ter muita cortiça ou abelhas. D. Manuel I dá novo foral e também um novo nome, que não pega. No foral baptiza-a de “Vila Melhorada, que se chamava Cortiçada”.

Padre jesuíta do século XVI, filósofo e teólogo
Pedro da Fonseca, o “Aristóteles português”

Em Proença-a-Nova, uma estátua em frente à Igreja Matriz homenageia o mais ilustre dos filhos da terra, Pedro da Fonseca. Filósofo e teólogo, o padre jesuíta ficou conhecido como o “Aristóteles português” e o seu pensamento influenciou grandemente o de todo o século XVI.

A estátua de Pedro da Fonseca está ao lado da pequena Igreja da Misericórdia, e não é por acaso. O padre jesuíta, cuja influência se estendeu ao Vaticano, trouxe no regresso a Portugal um santo lenho, um pedaço da cruz onde foi o martírio de Cristo. Na invasão francesa – conta a lenda – os invasores roubaram a cruz de prata com o santo lenho e levaram-na. Mas ao sair de Proença, a prata da cruz transformou-se em ferro e, ao verem que não tinha qualquer valor, os soldados deitaram-na fora e a população recuperou-a e voltou a depositá-la onde nunca devia ter saído: a Igreja da Misericórdia.

E assim estamos de regresso às invasões francesas e demos a volta ao concelho de Proença-a-Nova.

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