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Pinhel: o forno comunitário de Manigoto volta a encher-se de vizinhos

forno comunitário de Manigoto

Na zona antiga de Manigoto paira no ar um aroma guloso. As vozes começam a ouvir-se já no final da Rua do Padre e chegam-nos do pequeno e térreo edifício de pedra a que faltam janelas, na esquina.  De quando em vez, os vizinhos da aldeia do concelho de Pinhel juntam-se e voltam a dar vida ao antigo forno comunitário da aldeia. Cheira a pão e à queima da madeira. Cheira a outros tempos.




Aberta a porta, os olhos demoram a habituar-se ao breu quase palpável do forno. A luz de uma gambiarra acende-se e vemos um grupo de uma meia dúzia de mulheres e dois homens. Feitas as apresentações, olha-se em redor. Da fornalha saem chamas e um halo avermelhado. Arrumadas ao alto, estão duas pás de madeira de cabo descomunal. A um canto estão os ramos das árvores dos campos em volta e junto à parede uma mesa com duas masseiras cheias e cobertas com panos brancos. Destapam-nos para que grandes pães de centeio se mostrem em todo o seu esplendor.

Somos recebidos como se fôramos conhecidos que se revêem com prazer e logo começam as explicações, com todos a quererem dar a sua achega. Só quando destapa as masseiras é que Regina Simões assume o controlo das operações. “O forno comunitário – diz-nos – agora só é utilizado para a Feira das Tradições e outros eventos”. Só é utilizado quando a aldeia quer mostrar os seus produtos tradicionais.

O forno comunitário só parava ao domingo

Longe vão os tempos em que o forno comunitário só parava ao domingo. “Juntavam-se dois ou três casais e faziam o pão para a semana. Traziam a lenha às costas ou de burro, os pães já tendidos e utilizavam o forno”, lembra Maria Gonçalves que, em miúda, ainda amassou muito pão. Os vizinhos organizavam-se de uma forma espontânea, esperando as suas veces. “Quando falavam do forno comunitário, as pessoas não diziam vez, diziam vece: ‘Amanhã ou depois é a minha vece? diziam”.

O forno trabalhava todos os dias para abastecer de pão uma aldeia que à época era muito populosa. Só ao domingo é que ninguém entrava, que o pão não se coze ao domingo, que é dia do Senhor.

“O forno comunitário só é utilizado quando há eventos”

“Ainda hoje, quem quiser pode utilizar o forno comunitário” – diz, novamente, Regina Simões. Mas não há quem o faça. “É muito mais fácil ir à padaria comprar pão. Quando deixou de servir para o dia-a-dia, os habitantes de Manigoto passaram a utilizar o forno de todos apenas em dias de festa. “Usavam-no nos casamentos e batizados, mas agora já não”. Leonilde Valente interrompe e lembra que “muitos já têm fornos em casa” e em casa se aviam. É que são já poucos os que habitam as tradicionais casas com loja no rés-do-chão. As habitações têm agora espaço para amplas cozinhas e por isso também já não se assa aqui o cabrito dos dias festivos.

A ideia era vermos a preparação dos coscureis de Manigoto, célebres na região, mas há muito que a primeira fornada estava pronta. Agora preparava-se o forno para os biscoitos. Há um ambiente alegre dentro do forno comunitário, que todos são vizinhos que se prontificam para mostrar o que a freguesia sabe fazer. Mas há trabalho a fazer e Leonilde Valente pega na carrinha e com ela percorre as poucas centenas de metros até à sua casa, sempre seguida por um entusiasmado cão que faz bruscas mudanças de direção para incómodo do jornalista que vai logo atrás.

Pão, coscureis, esquecidos e biscoitos preparados no forno comunitário de Manigoto
Antigamente, o forno só parava ao domingo
Manigoto revive tradições antigas

Que Deus te cresça, / Que Deus te veja crescer.

Leonilde chega a casa na zona cimeira de Manigoto. No campo há videiras que “já chegaram a dar 40 mil quilos de uvas”. Nesta casa de agricultores há uma cozinha separada para o fumeiro e os petiscos. É aqui que Leonilde trata do pão que será cozido no forno comunitário dentro de pouco tempo. Cobre a masseira com farinha de centeio (o pão aqui preparado tem predominância de centeio mas também leva algum trigo para amaciar) e faz a saboeira juntando água ao fermento e mexendo bem para que fique uniforme.

Depois chega a altura de pôr verdadeiramente a mão na massa. “Primeiro, benzemo-nos”, diz ao mesmo tempo que os seus braços fazem o sinal da cruz. Inclina-se então sobre a masseira e é nesta posição que vai mexendo com cuidado a farinha, juntando-lhe a saboeira que vai sendo temperada com água quente ou fria por Maria Isabel para que a mistura fique tépida. O trabalho demora uma boa meia-hora, sempre curvada. “Se fosse só para a casa era fácil, bastava só um bocado. Mas assim é uma canseira”, confessa.

Quando está contente com a consistência da massa, Leonilde usa então a palheta com que raspa a que teima em ficar colada à masseira e por várias vezes traça cruzes na massa ao mesmo tempo que faz a reza do pão:

Com as mãos na massa

“Em louvor de São João
te faça bom pão.

Em louvor de São Vicente
Que te acrescente.

Que Deus te cresça,
Que Deus te veja crescer.

Quando eu vier
Que estejas pronto para tender”.

A masseira é então coberta por um cobertor para que o calor não se perca e enquanto a massa cresce Domingos Valente põe na mesa vinho, jerupiga, presunto e chouriço, tudo feito em casa, e o tempo passa a correr.

  • Já com o pão tendido na sua forma final, já no forno comunitário, é Domingos quem se encarrega de manobrar com mestria a grande pá e colocar um a um os pães que demorarão perto de uma hora a cozer. Um a um, os pães são colocados na pá e encomendados: “pelas almas do Purgatório que Deus te coza”.

Entretanto, num braseiro com o borralho que saiu do forno é colocada uma grelha com tiras de entremeada. à porta do forno estão duas travessas com batatas inteiras temperadas com sal. Quando o pão sair, os vizinhos de Manigoto irão comemorar com um petisco. O pão está bom e juntamente com os esquecidos, os biscoitos e os coscureis farão as delícias dos visitantes da Feira das Tradições.

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Jorge Montez (texto) Miguel Montez (imagem): Jorge Montez nasceu e fez-se jornalista em Lisboa, mas quando o século ainda era outro decidiu mudar-se de armas e bagagens para Viana do Castelo. É repórter. Viveu três meses em Sarajevo quando os Balcãs estavam a aprender os primeiros passos da paz, ouviu o som mais íntimo da terra na erupção da Ilha do Fogo e passou cerca de um ano pelos caminhos do Oriente.
Miguel Montez - Mesmo quando não está com a máquina pensa nas cores e nos enquadramentos. A fotografia é paixão e vai ser profissão. É curioso por natureza. Gosta de conhecer locais e pessoas e delicia-se quando descobre sabores novos. Este é um projeto à sua medida. Já foi voluntário no estrangeiro e tocou em festivais de música.
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