Grande Lisboa, Lisboa

O sinal de trânsito mais antigo do mundo está em Lisboa

É nas ruelas de Alfama que se encontra aquele que é considerado o sinal de trânsito mais antigo do mundo, o único que sobreviveu dos 24 mandados colocar por ordem do rei D. Pedro II.




Na Rua do Salvador, mesmo ao pé das Portas do Sol, em Alfama, há uma inscrição numa parede que pode passar despercebida aos mais distraídos, mas que é de grande importância histórica. A placa de mármore é, nem mais nem menos do que o mais antigo sinal de trânsito de Lisboa e do mundo.

Em 1668, Lisboa era a capital vibrante de um dos mais importantes reinos do planeta. A ela afluíam a nobreza e os mercadores, que tinham de partilhar as estreitas ruas com os habitantes da cidade.

Em tempos em que a honra era frequentemente lavada com sangue, as disputas de trânsito podiam tornar-se um caso sério e a meio da artéria, a Rua do Salvador estreita consideravelmente. Já assim o seria antes do terramoto.

É nesta rua que está o primeiro sinal de trânsito do mundo
A Rua do Salvador já foi uma importante artéria de Lisboa

A Rua do Salvador é hoje uma pequena artéria que torna mais rápido o caminho entre a Rua das Escolas Gerais e a Rua de São Tomé, e só por lá passa quem for em passeio por Lisboa, mas no século XVII fazia parte do percurso que ligava o castelo à zona ribeirinha da cidade de Lisboa e era uma das mais concorridas da cidade. E ainda por cima, era utilizada por quem tinha afazeres junto da corte.

Imagine-se duas liteiras ou coches vindas de direções diferentes. Ninguém se sentia obrigado a ceder passagem. O conde porque era mais importante que o barão, o comerciante porque era mais rico do que o outro…

Entre os cocheiros, os liteiros e os lacaios que transportavam os senhores era comum rebentar uma acesa discussão que não poucas vezes terminava em pancadaria.

Para evitar que os conflitos estalassem, D. Pedro II ordena então que quem viesse a subir a colina em direção ao castelo teria prioridade sobre quem descesse, sendo obrigados estes últimos a recuar até àquela que agora é a Rua de São Tomé.

A placa colocada numa parede à direita de quem sobe, diz:

“ANO DE 1686 / SUA MAJESTADE ORDENA / QUE OS COCHES, SEGES / E LITEIRAS QUE / VIEREM DA PORTARIA / DO SALVADOR RECUEM / PARA A MESMA PARTE”

O bulício da cidade era tanto e os problemas de trânsito avolumavam-se de tal forma que D. Pedro II colocou um total de 24 sinais reguladores do trânsito em Lisboa, nomeadamente  em São Tomé, na Largo de Santa Luzia ou na Calçada de Santa Luzia.

O problema do trânsito deveria ser mesmo um caso sério nessa Lisboa setecentista, uma vez que o monarca não se limitou a colocar um ou outro sinal de trânsito, mas fez mesmo um equivalente ao Código de Estrada com penalidades que não eram nada meigas.

Se hoje nos queixamos das multas de trânsito, imagine-se nessa segunda metade do século XVII, quando os cocheiros, lacaios ou liteiros foram expressamente proibidos de usar adagas, bordões ou quaisquer outras armas que pudessem ser usadas numa discussão de trânsito.

Quem desobedecesse à ordem real pagaria a exorbitância de 2.000 cruzados de multa ou corria mesmo o risco de ser degredado para Pernambuco, Baía ou Rio de Janeiro.

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