Grande Lisboa, Lisboa, Reportagem

Um passeio diferente por Lisboa

Quando o guia se cala e os nossos ouvidos se enchem dos sons de Alfama sabemos que estamos a fazer um passeio diferente por uma cidade que é única. A televisão que debita de uma janela aberta, o chilrear dos pássaros, a conversa abafada que sai de uma casa… Os Free Walking Tour não são apenas para turistas.



Duas vezes por dia, pela manhã e à tarde, o Zé, o Rafa e todos os outros guias da Chill Out Lisbon estão no Largo de Camões e a eles se juntam turistas de todas as nacionalidades e idades para uma viagem de descoberta por Lisboa.

O conceito dos Free Walking Tours nasceu com o século na Europa. São passeios que passam ao lado do que é usual ser mostrado. Quem a eles se junta procura perceber melhor a cidade, ir um pouco além da superfície. Também assim é em Lisboa.

Um passeio diferente e muito interessante
Paragem em Alfama, onde se fala do bairro, mas também da pressão que sofre com o turismo

O Zé ou o Rafa, os guias que nos levaram em dois diferentes passeios pelos mesmos locais, contam a história da cidade, os momentos-chave e as suas gentes. Apesar de andarmos pelas mesmas ruas e pararmos nos mesmos locais, os passeios são diferentes, porque diferentes os interesses dos nossos guias. E essa é uma das riquezas desses passeios. Aqui não se encontram discursos preparados e transversais a toda a organização.

Essa é uma das melhores características do movimento Free Walking Tour. As outras são os guias em si (poucos têm como formação o turismo e os seus passeios acabam por refletir o modo como encaram a cidade), e o pagar-se apenas o que se considera justo. Em Lisboa, são já várias as opções para este tipo de passeios. Optámos pelos que primeiro começaram a fazê-lo. Um grupo de amigos que se chamou a si próprio Chill Out Lisbon e que todos os dias estão com as suas pastas amarelas no Camões à espera de quem queira conhecer a cidade pelos olhos dos que lá moram.

Ouvir Pessoa no Chiado

Às 10 horas, as pessoas vão-se juntando. Há de todas as idades e proveniências, famílias inteiras e viajantes solitários.

Este passeio diferente começa pelo Bairro Alto, onde ficamos a saber da boémia e das transformações sociais que se foram operando, segue ao Largo do Carmo onde o 25 de Abril e o terramoto são explicados. Desce ao Chiado onde ouvimos declamar Fernando Pessoa e segue para o Terreiro do Paço onde o Marquês de Pombal e a reconstrução de Lisboa são protagonistas.

Free Walking Tour em Lisboa é uma experiência válida

O melhor e o Pior
Para que o passeio resulte em pleno, os grupos não deviam ter mais de 10 pessoas.
Falar da Cervejaria Trindade e não se saber do seu bife é como recomendar uma tosta mista em vez da Francesinha no Porto.
Ouvir declamar Pessoa no meio da rua já valia o passeio. Globalmente muito bom

Junto à Casa dos Bicos é o período das Descobertas que vem à baila e, claro, também Saramago. Depois é o entrar por Alfama, saber da vivência própria do bairro, conhecer os recantos e seguir pelas vielas até um dos miradouros de Lisboa na Graça.

O percurso, só por si, já era apelativo. Neste andar pelas colinas lisboetas durante cerca de 3 horas, evitam-se os monumentos. Não é nos Free Walking Tours que se visitará a Sé, conhecerá os museus do centro da cidade ou o Castelo de São Jorge. Com os Chill Out Lisbon, não há acordos comerciais a cumprir. É apenas andar e conhecer a zona histórica da cidade, proporcionando uma experiência agradável e um passeio diferente que nos permitirá conhecer melhor Lisboa e os lisboetas.

Para perceber a cidade de hoje, há que falar do terramoto de 1755. Em frente às ruínas da Igreja do Carmo fala-se do amanhecer desse 1 de novembro que marcará indelevelmente a cidade. E os guias apelam à participação, construindo uma narrativa viva que impressiona o grupo.

No Chiado (mas não junto à estátua do poeta) ouvem-se as palavras de Pessoa e Mar Português ecoa primeiro em português e também em inglês. Este é um passeio que apenas pode ser feito em inglês ou em espanhol, porque a procura de turistas portugueses não é grande. E, no entanto, é um passeio diferente e interessante, mesmo para um lisboeta.

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