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Ruas floridas de Redondo: o papel feito arte

Redondo é terra de artistas. Se dúvidas houvesse, as Ruas Floridas estão aí para o mostrar. A minúcia e a imaginação colocadas nas decorações todas feitas de papel fazem da vila alentejana ponto de visita obrigatória no início de agosto dos anos ímpares.



Quase ouvimos o bater do bico da cegonha e apetece abraçar mochos, golfinhos, cavalos ou ovelhas por estes dias em Redondo. Mas não o podemos fazer porque toda a explosão de cor que por estes dias toma conta da alva vila alentejana é feita de papel. Os vestidos que esvoaçam na brisa do fim de dia, as estrelícias, estevas, papoilas, malmequeres, rosas, glicínias ou narcisos são tão reais que por vezes somos tentados a tocar-lhes.

Toda a decoração é de papel
Redondo é terra de artistas

As ruas ganham tetos de papel, novos temas e outros nomes. Da rua da Ovelha Choné ao Jardim em Flor, dos Tabuleiros de Tomar onde até o pão é de papel ao Fundo do Mar, os temas e toda a decoração é decidida e feita pelos vizinhos.

“Toda a gente arranja um bocadinho de tempo para isto. As pessoas gostam muito da sua terra e das suas tradições. Isto está muito enraizado aqui, o que não se vê noutros sítios”, num raro esforço comunitário.

Luísa Calapez é a cabeça de rua Cândido dos Reis, que por estes dias ganha o nome de Boutique de Palhais. Encontramo-la já a madrugada vai alta, no meio da azáfama.”Começámos a fazer o papel desde Outubro” Mas primeiro houve que escolher o tema e fazer o projeto. Esse é o trabalho do cabeça de rua, a pessoa que se responsabiliza por avançar e “mobiliza os vizinhos”.

“Contatámos diretamente para aí meia-dúzia de pessoas e elas depois chamaram outros. Acho que todos contribuíram a cortar as pétalas para flores ou o teto e todo esse pequeno contributo é o que dá satisfação”. Às 3 da manhã de uma noite onde não verão cama, são muitas as pessoas que se afadigam para que tudo esteja pronto quando a manhã chegar. “Quando os visitantes nos dão os parabéns, tudo isso nos motiva e dá orgulho, nos faz continuar e envolver a comunidade”

Redondo enche-se de cor
O fundo do mar

As Ruas Floridas acontecem de dois em dois anos em Redondo, mas ainda o trabalho não está concluído e já se pensa no futuro. “Nós ainda não, mas sei que moradores de outras ruas já têm projetos”. Durante um ano, as decorações maiores são trabalhadas em pavilhões e todos sabem o tema de todos, mas “há uma competição saudável e as peças mais pequenas são feitas em casa e só aparecem no último dia de montagem. “É uma competição saudável, todas as pessoas querem manter em segredo certos pormenores. E os trabalhos mais pequenos são escondidos em casa”.

“Ainda há bocado – conclui Luísa Calapez – passou aí a cabeça de uma outra rua e disse que este ano há ruas mais bonitas do que na última festa. Isto é uma competição saudável e sentimos satisfação por ver que as pessoas apreciam”.

Uma festa centenária

Normalmente, aponta-se para 1838 como o ano em que pela primeira vez houve Ruas Floridas em Redondo, mas o historiador José Calado, que tem dedicado a sua investigação ao património imaterial alentejano, encontrou recentemente um documento de 1763 – ano de grande seca – onde é prometida a Nossa Senhora de ao Pé da Cruz uma festa em agosto em sua honra se os campos recebessem a dávida da água. Como choveu e os redondenses são pessoas de manter a palavra, desde então passou a realizar-se a Festa dos Moços.

Redondo enche-se de cor
Os últimos retoques

A festa enraizou-se e as flores de papel começaram a aparecer, já no século XIX, em casa das pessoas mais abastadas. José Calado explica o porquê: “no Alentejo temos muito calor e no verão não há muitas flores, mas todas as festas são mais bonitas se as houver, pelo que as flores artificiais de papel e coloridas acabam por ser uma fuga às condições que temos”.

“Este tipo de iniciativa parte das pessoas mais abastadas a terra, que tinham capacidade para adquirir o material que não estava ao alcance de todos. Há registos – como os inventários orfanológicos, que nos indicam todos os bens que as pessoas tinham quando faleciam – onde aparecem já as flores de papel”.

As Ruas Floridas vão tendo a sua evolução e a tradição é mais ou menos pujante consoante os tempos. “No início do século XX, com as mudanças de regime e a 1ª Guerra Mundial há um ligeiro período de letargia e nos anos 50 volta em força, já com uma grande componente profana. Nos anos 70, um grupo de amigos – O Grupo Pró-Amigos – recupera uma série de tradições, entre as quais esta e de uma forma muito singela, até que a Câmara Municipal acaba por assumir e a festa acaba cada vez maior dimensão”.

José Calado destaca o sentido de comunidade da vila de Redondo, “terra de artistas”, ao lembrar um episódio bem mais recente. “Em 2009, meia-hora antes de começar as Ruas Floridas, houve uma trovoada que destruiu praticamente tudo. Mas os redondenses quando têm de se unir unem-se e em 3 ou 4 dias toda a população – os que costumavam participar e os que o não faziam – juntou-se e reconstruiu grande parte”.

Uma festa para miúdos e graúdos

De dois em dois anos, sempre que a data é ímpar, Redondo é cabeça de cartaz no Alentejo, num evento que “extravasa em muito o âmbito regional e até nacional”.  Ceia da Silva, o presidente da Entidade de Turismo do Alentejo, afirma ao Portugal de Lés a Lés a importância das Ruas Floridas de Redondo  no contexto da atratividade turística da região, sublinhando que a “questão identitária é cada vez mais o cartão de visita da região”.

Mas a Redondo pode – e deve-se ir – havendo oportunidade. Esta é uma terra de bem receber, com uma gastronomia própria e rica e um espírito que cativa os visitantes.

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