Alto Tâmega, Norte, Reportagem, Ribeira da Pena

Ribeira de Pena: casamento e fuga de Camilo

Esta é uma história que parece saída da pena de Camilo. O escritor, então muito novo, viveu cerca de dois anos em Ribeira de Pena. Aqui casou e da vila teve de sair com o que tinha no corpo. As aventuras e desventuras de Camilo Castelo Branco ficaram marcadas em vários dos seus escritos e são um bom pretexto para melhor se conhecer o território deste concelho de transição entre o Minho e Trás-os-Montes.




Ainda adolescente, com 16 anos, Camilo Castelo Branco queria seguir os passos do cunhado, com quem vivia em Vilarinho da Samardã e inscrever-se em medicina. Mas no século XIX era preciso saber-se latim para se ingressar na Escola Médica do Porto. Em Ribeira de Pena havia um latinista famoso, o padre Manuel Rodrigues, conhecido como Manuel da Lixa, que era das relações de Maria de Loreto, prima do futuro escritor e que tinha casa em Friúme.

Combinadas as aulas, o jovem Camilo chega a Friúme, então uma localidade com importância na zona. Por aqui passava a Estrada Real que seguia do Porto para o interior e era aqui que havia um entroncamento. Quem seguisse para a direita ia em direção a Chaves e quem escolhesse o caminho da esquerda começava a subir a encosta do Alvão em direção a Vila Real.

Como lembra Emanuel Guimarães, diretor do Ecomuseu de Ribeira de Pena, “esta era uma terra de comércio, com tabelião (notário) e boticário, profissões que normalmente apenas se encontravam nas sedes de concelho”. Mesmo na bifurcação da Estrada Real havia uma venda que pertencia a um abastado portuense, Sebastião Martins dos Santos, que tinha fugido das Invasões Francesas e encontrado refúgio e negócio em Friúme.

Ora acontece que Martins dos Santos era pai de várias meninas. A mais velha, Joaquina, de 14 anos, levou o coração de Camilo. Os dois conheceram a ilha dos Amores no Tâmega e, passado algum tempo, casaram.

O casamento de Camilo com Joaquina

O matrimónio realizou-se a 18 de Agosto de 1841 na Igreja do Salvador, em Ribeira de Pena, e terá sido um acontecimento. Ao fim e ao cabo, como nota Emanuel Guimarães, casavam-se dois jovens de futuro promissor. O sogro montou uma pequena casa em Friúme para os jovens noivos, hoje parte integrante do Ecomuseu de Ribeira de Pena. Ao casar-se com 16 anos, Camilo emancipou-se e pode receber a sua parte da herança paterna, mas como era de facto o sogro quem sustentava o casal, este impôs condições.

Camilo em Ribeira de Pena
Ao avistar as poldras que alvejavam poídas e resvaladiças ao lume de água, teve vertigens e disse: “Eu vou morrer.” Pôs o berço à cabeça, esfregou osolhos turvos de pavor,e esperou que as pancadas do coração sossegassem. Depois, benzendo-se, pisou com firmeza as quatro primeiras pedras; mas daí em diante ia como que cega; a corrente parecia-lhe caudal e negra. Quis sentar-se numa das poldras; e, na precipitação com que o fez para não cair, escorregou ao rio.A água era pouca e a queda de nenhum perigo; mas o berço caiu na veia da corrente que era bastante forte para o derivar. Quando ela estendeu o braço já o não alcançou. Arremessou-se então ao rio; mas os altos choupos da margem, encobrindo a baça claridade das estrelas, escureceram o berço. Neste lance,perdido o tino, a desgraçada correu de través para a margem, onde um claro de areia se lhe afigurou o berço.

Quando aí chegou, caiu; e, na queda, agarrou-se ao esgalho do salgueiro em que o pastor e o Luís moleiro a encontraram moribunda.

Camilo Castelo Branco, em “Maria Moisés”, uma das Novelas do Minho

E a principal das condições era que Camilo não se distraísse dos seus estudos de Latim. Assim sendo, o jovem casal apenas tinha permissão para se ver aos domingos. Camilo passava a semana com Manuel da Lixa na Granja Velha, onde aquele era pároco.

Apesar da pouca regularidade das visitas conjugais, Joaquina fica grávida. Mas Camilo não veria nascer a criança.

E a fuga

Havia no concelho dois morgados irmãos. O mais novo toma-se de amores por uma plebeia e decide-se casar. O mais velho é contra esta união e engendra um plano para humilhar o irmão e evitar o enlace. Conhecedor dos dotes do jovem Camilo, encomenda-lhe uns versos satíricos.

Camilo faz o que melhor sabe e escreve uns versos a meter-se com o morgado mais novo e sua ideia de se casar com alguém que não era da sua condição. Para que a humilhação fosse maior, os versos são afixados à porta da Igreja do Salvador antes da missa das onze. E, como se não bastasse, são publicamente lidos pelo boticário de Ribeira de Pena.

A risota espalha-se pelo adro da Igreja e os versos certeiros atingem o coração do alvo. O jovem morgado decide vingar-se da afronta, mas aponta baterias não contra o mandante ou o arauto, mas contra o mais fraco dos alvos: o jovem Camilo.

Com a sua honra em causa, organiza uma emboscada para acabar definitivamente com a verve camiliana. Valeu ao jovem aspirante a médico e à literatura portuguesa o padre Manuel da Lixa, que alertou Camilo para o atentado “horas antes da espera e da sepultura”.

Camilo só teve tempo de partir de Ribeira de Pena a toda a pressa, fugindo assim “com o Magnum Lexicon debaixo do braço, e com os ossos direitos que aquela terra ingrata me queria comer”.

Camilo acaba por entrar na Escola Médica do Porto e nos primeiros tempos ainda é o seu sogro quem financia os estudos. Mas o jovem vai-se desinteressando por Joaquina e o dinheiro acaba por deixar de fluir.

Camilo em Ribeira de Pena
Por um cabelo que não fui então mártir do génio! A vítima crucificada na porta da igreja não era das que dizem: “Senhor, perdoai ao poeta que não sabe as asneiras que diz!” Apenas lhe constou que era eu o instrumento da vingança de seu irmão, preferiu quebrar o instrumento, e deixar não só o fidalgo, que também o boticário em paz. Poeta era eu só naquela quadra de dez léguas; avisadamente conjecturou o homem que, esganando a musa que o verberara, abafaria aquele respiráculo de detracção inimiga.

O padre-mestre avisou-me horas antes da espera e da sepultura. Fugi com o magnum lexicon debaixo do braço, e com os ossos direitos que aquela terra ingrata me queria comer.

Camilo Castelo Branco em Ao anoitecer da vida

Camilo Castelo Branco só por uma vez terá visto a sua filha Rosa, que morreria criança. Joaquina seguiria pouco depois e assim se quebravam definitivamente os laços que ligavam o escritor a Ribeira de Pena.

Mas apesar de por aqui ter passado durante pouco tempo, Camilo voltou por várias vezes a Ribeira de Pena nos seus escritos. O rio Tâmega é um dos cenários eleitos, mas também Friúme, a Senhora da Guia, a capela da Granja Velha e, claro, a Igreja do Salvador, onde ocorreram os dois episódios mais marcantes da estada do escritor em Ribeira de Pena: o casamento e a fuga.

Os passos de Camilo por Ribeira de Pena podem ser seguidos no território, que o município tem um Roteiro Camiliano através do qual é possível conhecer os locais marcantes da passagem do escritor pelo território e saber como o mesmo se plasmou na sua obra posterior.