Lisboa, Reportagem

Os objetos poéticos de Pietro Proserpio na Ler Devagar

“O único objeto útil que fiz tinha uma ventoinha, mas aquilo não era eu e inventei uma história para ele. Esteve exposto apenas um dia e foi logo comprado. A pessoa comprou a história, não o objeto”. As máquinas cinemáticas de Pietro Proserpio estão em exposição permanente na livraria Ler Devagar, na Lx Factory.




Pietro Proserpio é um italiano radicado em Lisboa “há uma vida e três dias” que cria objetos poéticos. São cinemáticos, afirma, porque se movem mas também porque, ao jeito do cinema, contam histórias. Com 78 anos, passa os dias no topo da imensa rotativa que domina o espaço da Ler Devagar para deslumbrar os visitantes com as suas máquinas e histórias.

A sua marca na Ler Devagar vê-se logo à entrada, com a bicicleta voadora que recebe suspensa todos os que entram na livraria. Já no primeiro andar, é um mobil gigante que chama a atenção. Chama-se “O Sonhador” e conta a história de um homem que um dia sonhou alcançar a Lua montado no seu monociclo e armado com um guarda-chuva. O homem não sabia que a lua escondia o barco dos piratas e teve de voltar atrás. “Nunca chegou à Lua, porque se chegasse não era um sonhador, era americano”.

O espaço que as máquinas poéticas de Pietro Proserpio ocupam é no topo da rotativa, no pequeno corredor onde antigamente se afadigavam os operários. Esta era a máquina da Minerva e foi aqui que se imprimiu o primeiro Expresso após o 25 de Abril.

O semanário trazia pela primeira vez palavras livres de censura e é de liberdade que se continua a falar com as máquinas poéticas de Pietro. Temos o “Dia de Chuva em Alcântara”, o “Charlot” e “Monsieur Hullot”. Temos poesia.

Pietro Proserpio, 78 anos, começou a construir os seus objetos cinemáticos há pouco mais de 20 anos. Quando a Ler Devagar o descobriu ainda estava em Braço de Prata e convidou-o para fazer várias exposições individuais. Ao mudar-se para a Lx Factory, resolveu desafiar o artista para aí se instalar permanentemente. Para quem visita o espaço, este foi o casamento perfeito.

Uma vida a construir brinquedos

Proserpio veio para Lisboa em 1949, com apenas 11 anos, pela mão do pai que vinha gerir uma têxtil. Estudou no Liceu Francês e nunca se livrou de um ligeiro sotaque italiano que exibe com orgulho. A vida profissional passou-a ligado à indústria têxtil, seguindo assim as pegadas do seu pai. “Muitas vezes, as pessoas perguntam-me se sou engenheiro. Respondo-lhes que sou um operário que constrói máquinas poéticas”.

Fez toda a sua vida em Portugal. Casou-se com uma portuguesa e teve dois filhos que lhe deram quatro netos. “Quando era pequeno fazia brinquedos para mim, depois construía para os meus filhos e mais tarde para os meus netos. Agora dei a volta e voltei a fazer brinquedos para mim”, diz, com o mesmo sorriso maroto com que conta as histórias que os seus objetos poéticos contam.

Para além das referências cinematográficas, o tempo está muito presente na obra deste artista que tem Einstein como uma das suas referências. Como no objeto “Espiral do Tempo”, que nos mostra no vídeo. “Esta é a espiral do tempo, que agarra em nós e nos arrasta irremediavelmente para o nosso destino, sem nunca parar. Mas o tempo é relativo e embora os nossos amigos suíços nos digam que o tempo é uma coisa rigorosa, não o é. Demora a passar quando estamos à espera da pessoa que amamos e a correr quando estamos juntos. Disse que o tempo nos arrasta irremediavelmente e isso também não é inteiramente verdade, porque o homem não podia aceitar isso e tinha de inventar qualquer coisa que bloqueasse o tempo nem que fosse apenas por um instante. E então inventou a câmara fotográfica japonesa que congela o tempo”.

São pequenas histórias cheias de poéticas, a maior parte das vezes bem humoradas que Pietro Proserpio faz os seus objetos contar. São sempre máquinas que reciclam partes que pareciam não ter outro destino que não o lixo. Mas o artista vê nelas potencial para o ajudar a criar as máquinas que se movem e que encantam no espaço da Ler Devagar.

E quanto à ventoinha que vendeu, a história é simples. A ventoinha simboliza a aragem do amor que faz tudo mover.