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Museu do Sabão de Belver: a não perder!

Junte-se cinza, cal, borras de azeite e água e obtenha-se sabão. Adicione-se um passado de monopólios reais, contrabando e revoltas e temos um museu.

O que une Beirute, Barcelona, Marselha e Belver? O sabão. Em todo o mundo existem apenas quatro museus dedicados ao sabão e um encontra-se junto às margens do Tejo, na bela vila de Belver.
Durante 400 anos, as gentes de Belver dedicaram-se ao fabrico de sabão. Primeiro a mando dos reis e depois em proveito próprio, a atividade ocupava uma parte significativa da população da vila hoje no concelho do Gavião.



Menção Honrosa – melhor projeto público
Prémios Turismo do Alentejo 2015

A atividade foi morrendo no início do século passado e a última vez que se voltou a juntar a cal e as cinzas ao azeite foi por alturas da 2ª Guerra Mundial, quando a escassez e o racionamento levaram a um breve ressurgimento da indústria. Depois, o tempo foi pondo um manto de esquecimento e só há pouco Belver voltou a ter orgulho deste seu passado.

Na geografia de Belver, o castelo erigido pela Ordem dos Hospitalários impõe-se na paisagem, na mais alta das colinas. A vila vai-se desenvolvendo a seus pés neste terreno acidentado. A chegada do comboio fê-la descer até quase tocar as margens do Tejo. A escola primária levou-a a crescer colina acima, num caminho de passos esforçados seguido todos os dias pelas crianças. Até que um dia, a escola foi desativada. É lá no cimo que hoje está o Museu do Sabão.

Saboeiro já foi insulto, hoje é orgulho
“Chamavam-me saboeira”

Entre terras próximas, a rivalidade surge muitas vezes sem que se saiba porquê. Acontecia entre Gavião e Belver. Silvia Bernardo, a jovem funcionária do Museu do Sabão, lembra-se do que sentia quando na escola primária lhe chamavam saboeira.
“As crianças chamavam-me saboeira e eu não sabia porquê, mas não gostava. Antes as pessoas da outra margem chamavam saboeiros aos belverenses e faziam-no com uma conotação negativa. Nós não gostávamos, mas nem uns nem outros sabiam porquê.”
”Desde que o Museu do Sabão existe, as pessoas perceberam que há uma história por trás. Já não nos chamam saboeiros e o termo deixou de ter uma conotação negativa. Hoje temos orgulho em sermos saboeiros”.

Um museu que surpreende

E este é um museu que surpreende o visitante pela sua qualidade, quer de conteúdo quer de organização expositiva. Também se só existem quatro no mundo – e mais alguns associados a fabricantes – a fazer-se que seja a sério. E assim é.

Ao chegar, deixamo-nos enlear pela profundidade e sobriedade do espaço, onde o escuro das paredes e do teto nos fazem focar toda a atenção no conteúdo. Aqui se fala da composição do sabão, da sua história e da sua relação com Belver.

O sabão que em Belver foi produzido era o mole, aquele que tem na sua composição potássio e que por ser mais agressivo não é utilizado na higiene pessoal. Usava-se na roupa e na lavagem de soalhos que, depois de esfregados, ficavam limpos e a cheirar bem e tudo porque a molécula do sabão envolve a sujidade e quando a água é passada é por esta atraída trazendo consigo as sujidades.

Toda a história do sabão

Foi na Mesopotâmia que pela primeira vez foi criada uma substância rudimentar para a lavagem de tecidos mas é apenas já na nossa era que pela primeira vez os romanos falam da utilidade do sabão na remoção da sujidade corporal. O processo químico de saponização foi descoberto pelos árabes no século XII e não tardou até que se popularizasse.

Vamos sendo guiados pela história do sabão, pela sua evolução e pela relação com Belver. O centro do espaço expositivo é marcado por uma escultura helicoidal de sabão e pela vitrina com alguns dos mais emblemáticos sabões produzidos em Portugal. É aqui que os mais velhos apontam para os Lux que “nove em cada dez” estrelas usavam e ficam a saber serem feitos em Portugal.

No mesa interativa, os visitantes podem fazer uma viagem pessoal pela história e melhor perceber todo o processo da lavagem que a composição química permite. Este é o espaço predileto dos mais novos, que ainda têm ao seu dispor computadores com um jogo criado para o museu.

Em Belver funcionou durante 300 anos a Real Fábrica do Sabão. Às artes já conhecidas das suas gentes, foi fundamental para a escolha do local o Tejo que corre ali em baixo em direção a Lisboa para fazer o transporte por barcaças até à corte. O monopólio real era efetivo e a sua defesa férrea, tendo mesmo chegado a proibir-se o comércio das cinzas fundamentais ao fabrico do sabão. Quando no século XIX a senha dos oficiais reais chegou ao ponto de entrar casas dentro à procura de vestígios da produção artesanal e escondida, a revolta foi inevitável.

Tudo isto se conta no Museu do Sabão. Isto e muito mais. Inaugurado em 2013, o museu ao fim de um ano já tinha sido visitado por 4.000 pessoas e esse número continua a crescer, tendo alcançado por direito um lugar próprio no roteiro turístico do Gavião. Dentro de pouco tempo em Belver terá a companhia do Museu das Mantas.