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MMIPO: 6 obras a não perder no Museu da Misericórdia do Porto

Sabia que o voluntariado é coisa antiga? E que eram as misericórdias quem acompanhavam os condenados ao cadafalso? A história da Misericórdia do Porto é contada no MMIPO, o museu que surpreende na portuense Rua das Flores e que é de visita obrigatória. Contamos a história de seis obras que fazem a diferença naquele que foi considerado o melhor museu português de 2016.



Esta é uma visita pelas mais emblemáticas peças do MMIPO, orientada por Paula Aleixo, diretora do Departamento de Atividades Culturais da Santa Casa da Misericórdia do Porto. É uma visita que nos leva a conhecer obras que se destacam quer pela sua qualidade artística quer pelo simbolismo que carregam.

1 – O projeto de Nasoni

O MMIPO está instalado no local que foi sede da Santa Casa da Misericórdia do Porto desde o século XVI. Com problemas estruturais por causa da humidade edifício sofreria importantes alterações pela mão de Nicolau Nasoni, o pintor-arquiteto que deixou uma marca profunda na arquitetura portuense e no norte do país, já no século XVIII.

Paula Aleixo explica que “apesar de ter trabalho muito na cidade do Porto, não existem projetos de Nicolau Nasoni, porque os projetos eram instrumentos de trabalho que eram utilizados na própria obra e a maior parte das vezes desapareciam”.

Daí que um projeto feito pelo punho do próprio Nicolau Nasoni, bem como o livro de obra, seja uma autêntica preciosidade que o MMIPO expõe. O projeto, afirma a responsável, apenas sobreviveu porque “a Misericórdia do Porto foi uma instituição que desde sempre colocou muita atenção na construção da memória e sempre teve um arquivo muito organizado”.

2 – O Voluntário

O voluntariado homenageado no MMIPO

Logo na primeira sala do MMIPO, existe um quadro de uma pessoa atarracada e vestida de preto a tratar de um doente acamado.

É um retrato de José António dos Santos, O Voluntário, e foi mandado fazer pela mesa da Misericórdia em 1841, para homenagear a sua dedicação aos enfermos.

O retrato tem a inscrição “A Meza desta Santa Caza de 1840 a 1841 mandou tirar à sua custa o retrato do irmão José Ant.º dos Santos, para dar-lhe hum testemunho da sua gratidão e excitar a posteridade a imitar a extrema caridade com que elle tem curado por mais de 30 annos os doentes do hospital”.

Para Paula Aleixo, “nós temos a ideia de que agora é que há isto e aquilo, mas muitas vezes as coisas existem desde sempre, mas com outras roupagens”.  José António dos Santos fez voluntariado durante mais de 30 anos no hospital de Santo António e noutros estabelecimentos da Misericórdia.

A diretora do Departamento de Atividades da Santa Casa da Misericórdia do Porto salienta que as atividades desta instituição “vinha exercendo ao longo dos séculos tinham também uma componente de mobilização social” que é retratada neste quadro.

3 – A bandeira das execuções

Fez em julho de 2017 150 anos que Portugal aboliu a pena de morte, tornando-se o primeiro Estado Soberano da Europa a tomar esta medida civilizacional.  Mas até lá, sempre que no Porto um condenado era sentenciado à pena capital, era a Misericórdia quem se encarregava do cortejo até ao cadafalso.

Onde também se fala do enterro dado a liberais
O estandarte dos condenados

O MMIPO exibe a bandeira que acompanhava os condenados no seu último percurso. É um estandarte de madeira de duas faces pintadas com uma figura masculina e outra feminina, que pontuava no início do desfile dos condenados.

A propósito desta peça, Paula Aleixo conta a história do monumento aos Mártires da Liberdade que hoje está no cemitério Prado do Repouso. “A Misericórdia foi desde sempre uma entidade que viveu com os seus próprios meios e, por isso, tem uma autonomia em relação aos poderes que lhe permite ter, em determinados momentos, um pensamento e uma atuação desalinhados da doutrina oficial”.

Foi o que aconteceu durante as revoltas liberais de 16 de maio de 1828 do Porto e de Aveiro rechaçadas pelo poder absolutista. Os principais elementos foram preso e condenados à morte, tendo o seu corpo sido esquartejado e exibido publicamente, não só no Porto como nas suas terras de origem.

“A Misericórdia recolheu os corpos e deu-lhes sepultura, numa primeira fase aqui neste edifício. Mais tarde construiu mesmo um monumento no cemitério Prado do Repouso e é lá que estão”.

4 – O Cálice da Confiança

No corredor do MMIPO que faz a junção entre a sala dos benfeitores e a da ourivesaria e paramentária existe um cálice de ouro que é fruto de uma bonita história.

Na sala onde funcionava antigamente o arquivo existe um grande cofre de que já se tinha perdido a memória. Quando foi aberto, encontraram-se “imensas alianças de casamento”. Os anéis eram provenientes não apenas de pessoas que morreram nos lares geridos pela Misericórdia, mas também de doações.

“Apesar de agora ser uma prática menos comum, antigamente muitas pessoas vinham aqui oferecer as suas alianças porque esse era o desejo do marido ou da esposa que tinham morrido”.

Paula Aleixo continua a contar a história: “quando se iniciou o processo de transferência do arquivo, o Provedor foi confrontado com a existência desse conjunto muito alargado de objetos de ouro e teve a ideia de os juntar e fundir para fazer uma peça para homenagear os benfeitores anónimos”.

O cálice é da autoria de Manuel Alcino, artista ourives da cidade do Porto, continuador de uma linhagem de artesãos do ouro e da prata com casa aberta desde 1902.

5 – Fons Vitae

Fons Vitae, a peça central de um retábulo, ocupa lugar de destaque no MMIPO
Paula Aleixo: “O Fons Vitae é a nossa jóia da coroa”

O Fons Vitae é uma obra maior da pintura flamenga onde “o tema da fonte da vida aparece representado com enorme dramatismo”. Atribuído recentemente a Colijn de Coter, está datado de cerca de 1515-1517 e terá sido encomendado por alguém com grande proximidade com o rei D. Manuel I.

O monarca que lançou, juntamente com a rainha D. Leonor, o movimento das Misericórdias, é aqui retratado ao lado da mulher e dos filhos, e de muitas outras figuras, entre as quais o bispo com as vestes a evocar S. Pantaleão e, eventualmente, o provedor da Misericórdia com um livro na mão.

A encomenda da obra a um pintor flamengo ilustra a importância económica da cidade já no século XVI e as suas ligações ao norte da Europa. A sua atribuição a Colijn de Coter, a mestria e o dramatismo da obra levaram a sua fama para fora de Portugal e muitos dos visitantes estrangeiros chegam ao MMIPO com a intenção expressa de conhecerem o Fons Vitae.

O quadro a óleo sobre madeira de carvalho era parte integrante de um tríptico que se perdeu. Está exposto na belíssima Casa do Despacho, onde é peça (quase) única.

6 – O meu sangue é o vosso sangue

O jorro de sangue da Fonte da Vida estende-se à cidade

Colocámos o quase entre parêntesis no final do último parágrafo porque – efetivamente – o Fons Vitae não está sozinho na Casa do Despacho, o local nobre da Misericórdia onde antigamente se reuniam os mesários.

Com ela está o início de uma escultura contemporânea que se espraia depois na Rua das Flores. Trata-se de “O meu sangue é o vosso sangue”, obra encomendada ao escultor Rui Chafes – “obviamente com toda a liberdade criativa” – pela Misericórdia do Porto no âmbito do projeto de Arte Pública da Cidade.

Com esta obra, Rui Chafes pretende “estender para a cidade este jorro de sangue que tem início no Fons Vitae. É a materialização através de uma peça que, sendo de ferro, é leve e pinga para o exterior”. Paula Aleixo sublinha que “quem passa na rua é de alguma forma sobressaltado por esta visão e o que nós esperamos é que essa desinquietação suscite também o desejo de vir cá dentro e perceber que casa é esta”.

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