Grande Lisboa, Lisboa

Memória do “Senhor do Adeus” regressa ao Saldanha

Durante anos, João Manuel Serra acenava aos automobilistas que de noite passavam pelo Saldanha, em Lisboa. Gerações conheceram-no como o “Senhor do Adeus.” Agora, a sua memória foi perpetuada na praça que ajudou a tornar mais humana.




É uma placa de pedra ao nível do solo. Nela estão marcadas duas pegadas pejadas de mãos abertas. No Saldanha, entre a paragem do autocarro e o edifício do Monumental, ficou gravada a memória do “Senhor do Adeus”, seis anos após a sua morte.

O arranjo urbanístico do Saldanha foi aproveitado para se deixar um pequeno apontamento sobre uma das personagens típicas mais simpáticas da cidade de Lisboa. Durante 15 anos, todas as noites João Manuel Serra acenava a quem passava de carro pelo Saldanha, de sorriso no rosto marcado pelos óculos de massa. Sempre impecavelmente bem aprumado e de saco de plástico na mão esquerda, com este pequeno gesto tornava melhor a noite de quem por lá passava e muitos eram os que correspondiam ao aceno, dando pequenos toques de buzina ou acenando de volta.

Rapidamente ganhou a alcunha de “Senhor do Adeus”, mas confessou em entrevista que era epíteto de que não gostava. Preferia ser conhecido como o “Senhor do Olá”, mas não foi assim que os lisboetas o baptizaram.

Gostava de ter ficado conhecido como Senhor do Olá
João Manuel Serra, o “Senhor do Adeus”

João Manuel Serra faleceu em casa aos 79 anos, a 10 de novembro de 2010, depois de ter assistido ao filme “A Rede Social”, que conta os primórdios do Facebook. Esta é a faceta menos conhecida do homem que humanizou a noite lisboeta. João Manuel Serra era um cinéfilo e todos os domingos ia com amigos ao cinema e as suas impressões eram depois corporizadas no blogue “O Senhor do Adeus” e até numa rubrica no canal televisivo Q. Do grupo fazia parte o realizador Filipe Melo e é deste relacionamento que nasce a participação no filme “I’ll see you in my dreams”, bem como na série televisiva “Mundo Catita”, que conta a biografia fictícia de Manuel João Vieira.

Dele, conhecem os lisboetas o sorriso e o aceno. Em entrevista ao “Público” afirmava não se importar com aqueles que lhe chamavam doido. Saia de casa à noite para fintar a solidão que o “esmagava”.

Filho de um diplomata e com posses familiares que lhe permitiram nunca ter trabalhado. João Manuel Serra conhecia mundo e viajava frequentemente com  mãe, que afirmava ser o amor da sua vida. E foi com a sua morte que a solidão noturna se tornou insuportável, que o “perseguia por entre as paredes vazias”, na velha casa das Laranjeiras.

Por isso, João Manuel Serra começou a passear pela cidade à noite, em passeios que se repetiam. Aqui e ali começou a receber saudações de condutores que com ele se cruzavam e a retribuir. Daqui até ser ele a tomar a iniciativa foi um pequeno passo. “comecei a acenar às pessoas em vários pontos da cidade — conta na entrevista ao Público — Depois decidi que era nas Picoas que me sentia melhor. Passei a minha infância aqui”. Desta entrevista fica a frase “da minha solidão sei eu” perpetuada na pedra.

Agora, a cidade retribui-lhe as milhares de noites em que humanizou a cidade. As dezenas de milhares de pessoas que tocou com um sorriso e um aceno. Pena é que a memória do “Senhor do Adeus” seja uma placa no chão. Tivesse sido um elemento escultórico e ainda hoje faria abrir sorrisos a quem passe de carro no Saldanha.

Jorge Montez
Nasceu e fez-se jornalista em Lisboa, mas quando o século ainda era outro decidiu mudar-se de armas e bagagens para Viana do Castelo. É repórter. Viveu três meses em Sarajevo quando os Balcãs estavam a aprender os primeiros passos da paz, ouviu o som mais íntimo da terra na erupção da Ilha do Fogo e passou cerca de um ano pelos caminhos do Oriente.