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A lampreia está aí do Minho ao Guadiana

Ela aí está e não deixa ninguém indiferente. Quem gosta diz que é dos mais saborosos pitéus da nossa culinária, mas também há quem a não possa ver. A lampreia está de regresso aos nossos rios e aos pratos de restaurantes de norte a sul do país.




À Bordalesa ou de arroz, a lampreia tem uma legião de adeptos por todo o país que não hesita em fazer muitos quilómetros para uma refeição opípara. De janeiro a abril, o ciclóstomo faz-se à costa e entra pelos nossos rios adentro, do Minho ao Guadiana. Os territórios preparam-se para a época e são vários os concelhos que aliam várias propostas de animação à proposta gastronómica.

pratos menos tradicionais também podem ser opção
A lampreia também pode ser recheada ou de escabeche

De Alcoutim a Melgaço, são muitos os locais de Portugal onde se pode comer lampreia fresca. Dizem os puristas que quanto mais a norte melhor é a iguaria por serem mais frias as águas. Mas a verdade é que há quem a prepare com mãos que fazem magia nos sabores. Seja qual for o prato por que se optar, quem come lampreia já sabe que tem de dar largas à bolsa, que este é um prato caro. A razão é simples. O pescador chega a vender cada lampreia a 45 euros. O negócios faz-se à unidade e o preço é em função do tamanho do seu tamanho. No início da época – em janeiro – é quando os preços atingem valores mais elevados, mas não se pense que quem anda no rio atrás dela gosta desse estado de coisas.

“Quando está muito cara é mau para o pescador, porque é sinal de que apanhamos pouca”. Quem assim fala é Fernando Ferreira, pescador do rio Lima, que exemplifica; “na maré desta noite não apanhei nenhuma… bom é quando ela chega em quantidade e o preço desce até aos 5 euros, porque isso quer dizer que apanhamos muitas. Aqui no Lima temos marés de apanhar 40, 50 e – com sorte – chegamos às 100”. No rio Lima, junto à foz, as 60 embarcações autorizadas a pescar lampreia apenas podem fazer uma maré. “É o único sítio do país em que fazemos turnos, ninguém pode fazer as duas marés”.

Parasita que nasce e vem morrer em água doce, a lampreia passa toda a sua vida adulta no mar. Para que o ciclo de vida se cumpra, vem desovar nos rios e começa a chegar no início do ano. O início da temporada de pesca raramente é amigo do pescador e em 2017 isso é particularmente verdade. “A lampreia já está perto da costa, a 3 ou 4 milhas, mas não encontra o caminho para o rio”. Em causa, afirma o pescador, estão as condições climatéricas. “Como choveu pouco, o rio tem pouco caudal e a lampreia não o encontra e por isso são poucas as que encontramos. Quando o fizer, então aí haverá fartura”.

Ela tem de cair na rede, seja a que é lançada dos barcos perto da foz, seja mais a montante nas pesqueiras, para que possa chegar aos pratos e fazer as delícias dos apreciadores. Os pratos mais pretendidos são o Arroz de Lampreia ou a Lampreia à Bordalesa, mas também é tradicional junto das comunidades piscatórias ser assada assada. Cada vez mais, os restaurantes inovam e  recheada ou o escabeche são algumas das formas de preparar o petisco que têm ganho cada vez mais adeptos.

À espera da maré certa
barcos de pesca de lampreia em Darque, no rio Lima

Em todo o Vale do Minho há animação até 15 de Abril associada à lampreia, uma iguaria que aqui é “um prato de excelência”. Mais a sul, a CP promove a Rota da Lampreia do Tejo, com programas combinados que incluem o preço da viagem de comboio, almoço em Belver ou Vila Velha de Ródão e programas de lazer.

Este petisco pode assim ser um excelente pretexto para um fim-de-semana diferente,

Jorge Montez
Nasceu e fez-se jornalista em Lisboa, mas quando o século ainda era outro decidiu mudar-se de armas e bagagens para Viana do Castelo. É repórter. Viveu três meses em Sarajevo quando os Balcãs estavam a aprender os primeiros passos da paz, ouviu o som mais íntimo da terra na erupção da Ilha do Fogo e passou cerca de um ano pelos caminhos do Oriente.