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A história de Pinhel num museu premiado

Em Pinhel, a Casa da Cultura alberga um dos melhores museus portugueses. Não somos nós quem o diz. Remodelado em 2015, venceu em 2016 o prémio de  melhor trabalho de museologia e foi ainda um dos finalistas do prémio de melhor museu português. Nele se conta a história de Pinhel.


Os prémios da Associação Portuguesa de Museologia são a recompensa por um trabalho cuidado de recuperação do edifício da antiga Diocese e quartel militar. A nova Casa da Cultura de Pinhel é agora a casa do Museu Municipal local, onde a história do território e do município é contada seguindo um fio cronológico.

Não se espere encontrar neste espaço muitas peças. Laurindo Monteiro, o diretor do museu e responsável pela museologia do espaço, preferiu apostar em “peças diferenciadoras” para mostrar aos visitantes. É neste contexto que temos as peças de cariz militar, como a bombarda ou o bacinete, ou os estandartes de ofícios que são “o melhor conjunto de heráldica corporativa” que se pode encontrar em Portugal.

O Museu Municipal de Pinhel conta, como já se disse, a história da ocupação do território seguindo uma linha cronológica, dos achados paleolíticos até à cidade do século XX e aos testemunhos dos mais velhos sobre as práticas e vivências da primeira metade do século.

É assim que pudemos ver desde os artefactos do paleolítico encontrados na zona de Prado Galego às fotografias de Pinhel do século passado. Pelo meio, em todo o percurso expositivo o visitante é surpreendido quer pela qualidade de algumas das peças, quer ainda pelo cuidado com que elas são apresentadas. Este é um museu para se saborear devagar.

Na sala da Idade Média, lá está um bacinete (um rara proteção de cabeça) e uma das duas bombardas de finais do século XV/XVI construídas nas tercenas de Pinhel mandadas estabelecer por D. João II. A bombarda que se pode ver no museu está incompleta mas impressiona pela sua boca de calibre de 34 centímetros. A outra, inteira, está no Campo da Trincheira. Foi na Idade Média que Pinhel ganhou o cognome de Falcão, uma distinção dada por D. João I, que chamou à então vila “guarda-mor do reino e senhorios de Portugal”, episódio que ficou marcado na história de Pinhel.

Um museu premiado

A arte sacra também tem espaço no museu

Retábulo do século XVI estava na Igreja da Misericórdia
O retábulo de João de Ruão

Já nos espaços que contam os séculos XVIII e XIX, não se pode deixar de apreciar os bastões dos vereadores e do Juiz de Fora e a curiosa urna onde ainda no final do século passado eram feitas as votações camarárias.

Não expondo todo o seu espólio, o Museu Municipal de Pinhel tem no entanto muitos motivos de interesses. Entre os principais estão o retábulo da Igreja da Misericórdia, em pedra de Ançã e cujo autor é o escultor francês João de Ruão, e o conjunto de estandartes corporativos do século XVIII, em muito bom estado, considerados como o melhor acervo existente em Portugal.

Como se vê, não faltam motivos para se visitar o Museu Municipal e a história de Pinhel. Mas a Casa da Cultura, onde está integrado, oferece ainda mais um motivo de interesse.


Museu José Manuel Soares

CCexpo

Se no piso térreo se pode conhecer a história de Pinhel, ocupando todo o primeiro andar do edifício temos o Museu José Manuel Soares. Pintor e ilustrador, os seus trabalhos mais conhecidos são do domínio da banda desenhada de temática histórica. Nascido em 1935, a sua obra é um produto da época, com o imaginário do Estado Novo: os grandes heróis, os grandes feitos de armas e os Descobrimentos.

O espólio do pintor autodidacta, mas premiado pela Sociedade Nacional das Belas Artes (ainda vivo em 2017 mas impossibilitado de pintar por motivos de saúde desde 2002), foi doado à Câmara Municipal de Pinhel que, em 2014, implantou o museu para expor a sua obra.

Aqui, juntam-se as suas ilustrações, os quadros históricos e as paisagens que têm sempre um elemento humano. Laurindo Monteiro, o diretor da Casa da Cultura, destaca a importância do acervo e afirma ser esta “uma coleção marcada pela educação do pintor, que depois a transporta para a obra de arte. Este é um espaço onde a história e a paisagem portuguesa podem ser apreciadas. Ele é um excelente ilustrador e representa a monumentalidade sem conhecimento académico mas com mestria”.

José Manuel Soares nasceu no concelho de Odemira e viveu em Leiria e Lisboa. Quando procurava um espaço condigno para apresentar a sua obra, a família pretendia que o mesmo se situasse num local com importância histórica. Foi assim que Pinhel recebeu o espólio e o museu nasceu.

 

Jorge Montez
Nasceu e fez-se jornalista em Lisboa, mas quando o século ainda era outro decidiu mudar-se de armas e bagagens para Viana do Castelo. É repórter. Viveu três meses em Sarajevo quando os Balcãs estavam a aprender os primeiros passos da paz, ouviu o som mais íntimo da terra na erupção da Ilha do Fogo e passou cerca de um ano pelos caminhos do Oriente.