Alto Minho, Norte, Valença

O dia em que Valença conheceu Charles Lindbergh

A 12 de novembro de 1933 chegou uma mensagem ao presidente da Câmara de Valença: "Diz-lhe que está cá um senhor chamado Lindbergh".
O casal Charles Lindberg e Anne Morrow no rio Minho
Lindbergh prepara-se para abastecer o hidroavião

Sabemos o dia e a hora em que os habitantes de Valença pela primeira vez viram um avião. E também sabemos quem o pilotava: nada mais nada menos do que o mais famoso aviador da história, o norte-americano Charles Lindbergh. Foi às 14 e 20 de 12 de novembro de 1933. É tempo de contarmos a história.

Este é um daqueles acasos que ficou gravado na memória de uma povoação. Em 1933, Charles Lindbergh era o homem mais conhecido do mundo, a primeira estrela global. Não apenas por ter sido o primeiro homem a fazer um voo sem escala entre Nova Iorque e Paris, mas também pelo rapto do seu filho. Mas esta é outra história e a ela também já iremos.

Este era o tempo heróico dos primórdios da aviação. Lindbergh voava pela Europa com Anne Morrow, a sua mulher, numa missão de prospeção de rotas comerciais aéreas. Tinha partido de Genebra com destino a Lisboa, mas o mau tempo que apanhou nos Pirinéus obrigou a um consumo extra de combustível, que não deixou outro remédio ao casal que não procurar um porto seguro para pousar e ir à procura de gasolina.

Ao sobrevoar a foz do rio Minho, o hidroavião Lockheed fez uma primeira passagem sobre Valença e seguiu para montante, encontrando o local de poiso na Ínsua do Crasto, na aldeia de Friestas. Ainda a aeronave estava no ar e já todos paravam os seus afazeres para pela primeira vez olharem para um aparelho que permitia ao homem imitar os pássaros. Quando o piloto apontou ao rio, todos acorreram a ver tão insólito acontecimento.

“Diz-lhe que está cá um senhor chamado Lindbergh”

“Aquilo era uma romaria!” Quem assim fala é Maximino Lourenço Gomes, na altura secretário da Junta de Freguesia de Friestas e que conheci em 1999. Foi da sua boca que ouvi o relato que agora replico: “Fui até lá de bicicleta e como não havia telefone, mandei um mensageiro a Valença”. O destinatário da mensagem era o administrador do concelho, Pinto da Mota, e o conteúdo da missiva era simples mas claro o suficiente para provocar comoção em Valença: “Diz-lhe que está cá um senhor chamado Lindbergh”.

[Façamos aqui um parêntesis para explicar a história por detrás desta reportagem. Foi em 1999 que fiquei a conhecer o episódio. Lavínia Pinto da Mota, filha do administrador do concelho, cedeu-me as fotografias até então inéditas para as publicar na Revista do jornal Expresso, e na altura falei com Maximino Gomes, então com 90 anos, com quem estive apenas uma vez. Com Lavínia Pinto da Mota estabeleci uma relação e ia por vezes beber um chá com ela a Valença. Neste artigo, não replico a reportagem de então. Ao fim e ao cabo já lá vão 16 anos e outros pesquisaram o assunto. Socorro-me também das informações recolhidas pelo projeto Vale do Minho, Espaço Memória e Identidade da Associação Cultura e de Estudos Regionais – ACER]

Sentado à porta de casa e apoiado numa bengala, Maximino olha-me e diz-me. “Eu nunca tinha visto um avião, mas sabia bem quem era Lindbergh”. O aviador foi a primeira estrela planetária e não apenas pela proeza que protagonizou. A 1 de Março de 1932, pouco mais de um ano antes de amarar no rio Minho, o seu filho de apenas 20 meses, Charles Albert Jr., foi raptado e encontrado morto dez semanas mais tarde. O acontecimento foi notícia em todo o mundo e Portugal não escapou à comoção geral. “Já tinha lido nos jornais que lhe tinham raptado o filho”, conta Maximino.

O aviador chegou a ser interrogado como suspeito pela polícia americana, mas o seu envolvimento foi descartado. Acabou por ser preso um homem e uma das empregadas dos Lindbergh por envolvimento no rapto e morte da criança. Esta foi uma novela da vida real seguida com interesse em todo o mundo, o primeiro crime globalizado pelos media.

O casal Lindbergh em Valença
“Ele era alto e sorridente e ela pequenina mas muito bonita”

Daí que 66 anos depois de se ter cruzado com Lindbergh, Maximino Gomes ainda jurasse que Lindbergh e a sua mulher andassem “à procura do filho que tinha sido raptado”. Não foi o caso, como vimos, até porque o corpo do bebé já tinha sido encontrado. Mas o equívoco manteve-se em muitos dos que viram o avião amarar no Minho.

Este terá sido um dos dias da vida de Maximino para mais tarde recordar, e por isso o antigo secretário da Junta de Freguesia, lembrava-se bem da impressão que o casal que tinha descido das nuvens lhe causou: “Ele era alto e sorridente mas a esposa era bastante miúda e baixinha. Era pequenina mas muito bonita”.

Chegada a mensagem a Valença, imediatamente se disponibilizou um automóvel para transportar o casal até à sede de concelho enquanto noutra direção seguia gente com ordem de encontrar gasolina para o avião. De Monção trouxeram 200 litros de combustível, suficientes para que o voo prosseguisse até Lisboa.

O casal Lindbergh chegou a Valença num ambiente de apoteose, tendo-lhe sido feita “uma calorosa acolhida”, de acordo com o correspondente do extinto jornal “O Primeiro de Janeiro”: “Dirigiram-se à Câmara Municipal, onde foram saudados pela Comissão Administrativa, do mesmo passo que os valencianos mais cotados que ali acorreram os cumprimentavam e o povo na rua os ovacionava delirantemente”.

A persistência do mau tempo obrigou Charles Lindbergh e Anne Morrow a prolongarem a sua estada, “em face do denso nevoeiro e abaixamento da pressão atmosférica”, de acordo com o Jornal de Notícias. Tiveram uma receção no Hotel Valenciano, em que participaram as autoridades locais e ainda a “consulesa” espanhola em Valença e o comandante da canhoneira espanhola “Cabo Fradera”. Estes últimos, como é óbvio, insistiram para que o casal visitasse Tui. Ao fim e ao cabo, apenas um acidente geográfico no rio internacional que permitia uma acalmia da corrente e dos ventos fez com que o avião ficasse em águas portuguesas. Contam as crónicas da época que Lindbergh não estaria muito pelos ajustes, mas que a diplomacia de Anne – filha de embaixador – levou a melhor e os dois atravessaram a fronteira e visitaram a bela catedral de Tui.

Depois de pernoitarem junto ao hidroavião – onde tinham “uma esplêndida cama de viagem e mantimentos para um mês” – chegaram telegramas do comandante do Porto de Matosinhos e do chefe de gabinete do ministro da Marinha “dando informações sobre o estado atmosférico”.

Os Lindbergh no rio Minho
O hidroavião prepara a descolagem

Estavam criadas as condições de seguir viagem, três dias depois de revolucionarem a pacata vida das terras em volta. Às 10 horas de 15 de novembro de 1933, “observados por uma multidão de pessoas que de todo o lado se juntou”, o casal dava início às manobras. ” O rio já havia sido balizado pelos marinheiros da canhoneira ‘Cabo Fradera’. Charles Lindbergh ‘desamarrou o seu avião e fez com ele uma corrida até à foz do Minho para apreciar a forma como seu aparelho poderá fazer a manobra da descolagem e ao mesmo tempo observar as margens do rio. Depois voltou a amarrar o avião no mesmo local e solicitou dados meteorológicos à estação telegráfica de La Guardia”, conta o Primeiro de Janeiro.

O Jornal de Notícias conta que o piloto “volta a frente para a foz do rio Minho. e apressa ainda mais o motor. Favorecida pela corrente e pela propulsão, a avioneta começa a levantar os flutuadores da água e dentro de um minuto ergue-se no espaço”. “Tomou a direção de Valença, ‘sobre a qual evolucionou a pequena altura dando uma volta em toda a circunferência. A população acumulada nas ruas, nas janelas, nas varandas, nas muralhas ovacionava freneticamente, agitando lenços brancos. Foi um momento de grande entusiasmo, a que Lindbergh e esposa corresponderam. Depois elevaram-se a grande altura e iniciaram o avanço para Lisboa a grande velocidade”, conta de novo o correspondente do Primeiro de Janeiro.

Extracto da digitalização efectuada pela Cinemateca Nacional do filme de F. Carneiro Mendes ‘Actualidades 1933 Nº3’.

Anne Morrow e Charles Lindbergh chegariam à Doca de Belém, destino da viagem, onde uma vez mais seriam alvo das maiores honrarias, às 12.40h, menos de duas horas depois de partirem de Friestas, um tempo de viagem que espantou todos, como se pode ver por este trecho do Primeiro de Janeiro: “‘Compare-se esta velocidade com a de um telegrama que nos foi expedido de Cerveira quando o aviador ali passou e que só chegou a este jornal às 15,45h! Gastou quatro horas e um quarto! Já Lindbergh tinha amarissado na doca de Belém havia 3 horas e 5 minutos!…’”

Monumento a Lindbergh em Friestas
Friestas recorda o episódio com um monumento

A Câmara Municipal de Valença recebeu, dias depois, um ofício do cônsul norte-americano em Vigo, onde é expressado o “‘profundo agradecimento pela cordial recepção prestada aos aviadores norte americanos, coronel Lindbergh e sua esposa, aquando da inesperada amaragem nas águas do Rio Minho’, acrescentando que ‘os senhores Lindbergh conservaram sempre uma grata recordação da sua breve passagem pela histórica Valença do Minho’”.

Valença e Friestas foram lentamente regressando à normalidade e à medida que o acontecimento se perdia na espuma dos anos, as conversas de café daqueles que tinham um dia conhecido Charles Lindbergh faziam sonhar os mais novos. É assim que o episódio é recordado num desfile etnográfico em 1995, voltando a suscitar a curiosidade que haveria em 1997 de se consubstanciar num monumento da autoria de Alípio Nunes, na estrada nacional em Friestas, a escassos metros do lugar onde o hidroavião amarou.

 

Jorge Montez
Nasceu e fez-se jornalista em Lisboa, mas quando o século ainda era outro decidiu mudar-se de armas e bagagens para Viana do Castelo. É repórter. Viveu três meses em Sarajevo quando os Balcãs estavam a aprender os primeiros passos da paz, ouviu o som mais íntimo da terra na erupção da Ilha do Fogo e passou cerca de um ano pelos caminhos do Oriente.