Área metropolitana do Porto, Norte, Póvoa de Varzim, Reportagem

O Cego do Maio e a história trágico-marítima no Museu da Póvoa de Varzim

Quando as vagas alterosas do mar poveiro aconselhavam prudência, o Cego do Maio fazia-lhes frente para salvar vidas. O herói maior da Póvoa de Varzim é homenageado no Museu Municipal quando passam 200 anos sobre o seu nascimento.




Desengane-se quem passeie ao fim da tarde pelo Passeio Alegre da Póvoa de Varzim. O belo mar que se tinge de tons cítricos ao pôr-do-sol tem sido palco ao longo dos séculos de histórias de dor e de luto.

A história trágico-marítima da Póvoa de Varzim é um novelo sem fim. Centenas de pescadores perderam a vida no mar que

A 27 de feveiro de 1892, o mar virou de repente, transformando-se num demónio que ceifou a vida a 105 pescadores que andavam na faina pela costa norte. Só a Póvoa de Varzim perdeu nesse dia fatídico 70 pescadores. O dia mais funesto da história tragico-marítima dos pescadores portugueses é por todos conhecido apenas como “o naufrágio” e, mercê da pressão pública, trouxe um novo olhar sobre a segurança martíma em Portugal.

ra suposto garantir-lhes o sustento e que continua a exigir o seu tributo.

Ali, muitas vezes com a costa e a salvação à distância de um abraço, muitos homens perderam a vida, numa luta desigual contra a natureza. Mas há sempre quem ponha de lado a segurança pessoal e vire a cara à luta para salvar quem está em apuros.

O Cego do Maio é o herói maior das gentes da Póvoa de Varzim. Nascido em 1817, este que era um dos “mais humildes entre os humildes” realizou mais de 80 salvamentos ao longo da sua vida.

Sempre que estava no mar e havia pescadores em apuros, virava a proa da sua catraia e à força de remos tentava impedir que o mar cobrasse vidas humanas.

Akmirante Silva Pereira, chefe do Estado Maior da Armada
“Era um homem humilde, dos mais humildes de todos que são, normalmente, os pescadores”.

“O Cego do Maio começou os seus salvamentos de uma forma totalmente voluntária, porque era um extraordinário pescador e um homem destemido e, por isso, é – para nós, gente da comunidade martítima – é a grande referência desse espírito de abnegação e coragem de estar disponível para ajudar o próximo.”.

O almirante Silva Pereira, chefe do Estado Maior da Armada, não tem dúvidas em afirmar – em declarações ao Portugal de Lés a Lés – o “exemplo maior” do Cego do Maio.

“Ele foi o único, até hoje, a ser condecorado com a Torre e Espada, a mais alta condecoração portuguesa, pelos salvamentos que fez. Era um homem humilde, dos mais humildes de todos que são, normalmente, os pescadores”.

“E por isso é que ele é uma referência: por ser uma pessoa tão humilde e tão relevante em simultâneo. Ele toca os extremos da humildade, por um lado, e da competência, da abnegação, do espírito de sacrifício para salvar os outros nada pedindo em troca”.

“Isto é que é extraordinário no Cego do Maio. Ele salvava os outros sem pedir nada em troca. Ele nem era funcionário do Estado, só o tendo sido na fase final da vida. É esse espírito que nós hoje queremos vivificar, para que sirva de exemplo para aqueles que na Marinha, ou noutras organizações, têm responsabilidades de salvar e ajudar quem anda no mar”.

"salvava sem pedir nada em Troca
O Cego do Maio e as condecorações no Museu Municipal

José Rodrigues Maio, o Cego do Maio, viveu toda a sua vida como pescador. Só nos últimos anos, decidiu abandonar a faina para se dedicar ao que o notabilizou e integrar a tripulação do primeiro salva-vidas que, nos anos 60 do século XIX, chegou à Póvoa de Varzim.

O salva-vidas Cego do Maio

O grande salva-vidas de linhas esguias é hoje a peça maior da sala do Museu Municipal sobre a história trágico-marítima. “A comunidade piscatória da Póvoa de Varzim era, nos séculos XVIII e XIX a maior do centro e norte de Portugal e o que procuramos aqui é preservar a memória desta comunidade da qual herdamos muitos dos nossos traços culturais, que são elementos distintivos. Não é por acaso que usamos como ícones a lancha e a camisola poveira. São elementos que nos chegam da herança piscatória poveira”, afirma Maria de Jesus Rodrigues, técnica-superior do Museu.

Maria de Jesus Rodrigues, técnica superior do museu
Com o virar do século surgem as redes de 90 metros e os pescadores deixam de levar as suas próprias redes, “produzindo-se uma profunda alteração sócio-económica na comunidade piscatória”. Até então, cada um tinha direito à parte que pescava com a sua rede, que se chamava quinhão. É daqui que vem a expressão “ter direito ao quinhão”

No Museu Municipal, essa herança é transmitida lembrando as artes de pesca, os sinais distintivos que os pescadores colocavam nos aprestos, os vários tipos de embarcações tradicionais que se faziam ao mar e, também, aqueles que se distinguiram pelo seu espírito de abnegação.

O Cego do Maio é a figura maior, até “pela sua personalidade e por ter sido mitificado durante o século XX”. Durante todo o século passado, “ele era a nossa Torre Eiffel, era o souvenir que se levava da Póvoa”.

E se houve outros heróis que não hesitavam em arriscar a sua para salvar a vida de outros, “como o patrão de Goa ou o patrão Sérgio, patrões de salva-vidas que sucederam ao Cego do Maio”, estes estavam já enquadrados em estruturas de salvamento.

O Cego do Maio – que terá ganho a alcunha por um pequeno defeito numa das vistas – era uma figura única e de tal forma marcante na vida e história das gentes da Póvoa que ainda hoje o seu busto perscruta o o oceano numa estátua mandada erigir por subscrição pública.

O primeiro salva-vidas que chegou à Póvoa de Varzim em 1864 tinha o nome do benemérito que o ofereceu, Mozer, mas foi depois rebatizado como Cego do Maio, nomenclatura que perdurou em todos os salva-vidas novos que foram entregues ao porto da Póvoa de Varzim. O primeiro salva-vidas esteve ao serviço mais de 60 anos e pode agora ser visto no Museu Municipal.

Aires Pereira, presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
O Cego do Maio representa os valores poveiros

Este herói humilde marcou não apenas as gentes do mar poveiro, mas toda a comunidade. Ainda hoje, é o seu retrato que está presente nas reuniões da Câmara Municipal local. “Sempre que morre alguém no mar, lembramo-nos dele”. “Além do mais, ele representa os valores de coragem e abnegação e por isso falamos muito dele.

“Ele vivia praticamente no mar, com os dois filhos que o acompanhavam sempre, e foi uma pessoa que representou os valores da comunidade que pretendemos passar à nossa juventude”, salienta Aires Pereira, presidente da edilidade local.

Hoje, o mar da Póvoa não é apenas dos pescadores, é também de todos quantos visitam aquela que é a mais importante estância balnear do norte do país. “Conseguimos conciliar as nossas tradições e o nosso peixe com a atividade de quem nos visita”. Sempre com o Cego do Maio por perto, de busto vigilante no Passeio Alegre, ou no Museu Municipal que agora conta a sua história.

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