Centro, Figueiró dos Vinhos, Região de Coimbra, Reportagem

Casal de São Simão, as fragas e o sentimento de comunidade

A aldeia de xisto de Casal de São Simão, em Figueiró dos Vinhos, tem apenas uma rua, mas nela todo o vale do Alge é abraçado. Este é daqueles cantos mágicos que já apaixonou muitos e que encanta quem lá vai à procura de paz.




O casario espraia-se pela única rua da aldeia. São casas de xisto, coladas umas às outras numa união que lhes emprestou conforto noutros tempos. Todas têm varandas ou alpendres e as antigas lojas dos animais têm hoje outros usos. A casa mais antiga da aldeia ostenta na padieira a data de 1701 e a mais recente é já deste século. Passeando-se por Casal de São Simão, é a um tempo a unidade e os pequenos pormenores que saltam à vista.

Com o vale na mira
Varanda

Vê-se pelos pequenos detalhes que esta é uma aldeia preservada com carinho. São pequenas tabuletas manuscritas, cataventos, cortinas que cumprem o seu papel deixando passar a luz e por vezes provocando uma reação a quem passa. Os utensílios da lavoura ganham agora uma funcção mais decorativa. Há mós e rodados de carroças a embelezar as casas. Toda a aldeia tem vista privilegiada para o vale onde corre a ribeira do Alge.

A nossa visita foi posterior ao incêndio de 17 de junho. Com esta série de reportagens, mos-tramos que continua a ser possível ter boas experiências na zona afetada. Fazer turismo também pode ser uma forma de solidariedade

Lá bem no fundo do vale, as Fragas de São Simão são imponentes. Os enormes afloramentos de quartitzo como que são rasgadas pelas águas do ribeiro, que um açude ajuda a tomar a forma de lago, antes de correr calmo por uma paisagem bucólica onde despontam, aqui e ali, sobreiros e castanheiros. Há uma praia fluvial e zonas para descansar aproveitando a fresca sombra embalados pelo murmurar das águas. Mas há também espaço para atividades mais radicais. O Espinhal das Fragas de São Simão é escalável e há várias vias equipadas, podendo-se ainda fazer slide ou rappel.

O trilho do Casal de São Simão

Para se chegar ao vale, há que fazer o percurso pedestre de cerca de 15 minutos. O sinalizado caminho do xisto de São Simão – descida às Fragas, tem um total de 5,1 quilómetros. Considerado fácil, tem 296 metros de subidas, mas que se fazem bem. O percurso circular apanha, no seu extremo, uma área ardida no incêndio de 17 de junho, pelo que se pode atalhar pela aldeia de Além da Ribeira. Este corte encurta o caminho para os 2,7 quilómetros com a vantagem de se passar pelas azenhas daquele povoado, onde ainda hoje se moem os cereais. O percurso está bem sinalizado, com exceção da zona da praia fluvial. Para se fazer este aatalho, deve-se atravessar a ponte de madeira e seguir pela íngreme estrada até se ver a descida para o casario de Além Ribeira. A partir daí volta a estar bem sinalizado.

As Fragas de São Simão são – para além da aldeia de xisto lá em cima no topo da encosta – o ex-libris da zona. O imenso afloramento rochoso como que foi cortado para deixar passar a água da ribeira. Cá em baixo, por entre árvores que dão fresca sombra, temos a praia fluvial. Existe um apoio com café e zona de esplanada.

O trilho desenrola-se quase sempre por estreitos carreiros por entre a abundante vegetação, alternando as zonas planas com pequenas subidas. E assim, sem esforço, se regressa a Casal de São Simão.

Um sentir comunitário

Já se disse que esta é uma aldeia que se vê ter sido recuperada com carinho. E isso aconteceu porque alguém que não é daquelas bandas um dia se apaixonou pela aldeia de xisto e comprou uma casa. Mostrou o Casal de São Simão a amigos e estes trouxeram outros… E assim se forjou um novo sentido de comunidade, cimentado pela esforço conjunto da recuperação de cada casa e do lugar.

Os novos habitantes de São Simão chegam todos do litoral, onde têm as suas vidas, e a paixão comum pelo lugar faz com que todos remem para o mesmo lado, juntado-se para defender a genuinidade da aldeia e para a promover.

Elsa Mourão, proprietária do muito confortável alojamento local Casa Amarela, conta ao Portugal de Lés a Lés como chegou a Casal de São Simão. “Conhecemos a Lina numa viagem a Marrocos e fomos mantendo contacto. Mais tarde, como estivemos na Argentina e ela também lá tinha estado, juntámo-nos para trocar experiências e viemos a descobrir que os nossos filhos tinham amigos comuns. Um dia, convidaram-nos para cá vir e apaixonámo-nos pela aldeia”. Surgiu assim a génese daquela que seria a Casa Amarela.

Esta é uma história que poderia ser replicada por quase todos os habitantes de Casal de São Simão. São pessoas que mantêm a sua vida fora, mas que aqui arribam sempre que podem. A única exceção é o casal de emigrantes que aqui vive todo o ano. Nenhum deles é daqui, mas a vida trouxe-os até à aldeia de xisto depois da reforma. Albertino Torres apascenta o pequeno rebanho de cabras e mete conversa com quem encontra. “É bom morar aqui – diz. O que é preciso é haver harmonia”.

O aroma do pão fresco

No topo da aldeia, encontra-se o excelente A Varanda do Casal. Um restaurante onde se pode provar boa comida tradicional com uma fantástica vista. É aqui que quase todos os dias pela manhã, Maria Antunes – a proprietária – amassa o trigo branco, o trigo escuro e o centeio escuro que, depois de levedados, farão a massa do pão de mistura que é cozido ali mesmo, em forno de lenha.

Todas as manhãs, a farinha é amassada por 15 minutos e quando já está ligada e lisa, Maria Antunes repete o ritual que viu fazer à sua avó: com a mão faz o sinal da cruz na massa e diz “Santíssimo Sacramento te abençoe e acrescente”.

Cerca de uma hora depois, o pão está pronto para ir para o forno nas traseiras do restaurante, que entretanto foi posto a aquecer. Primeiro é o cheiro das brasas incandescentes mas logo depois, sempre que a porta de ferro é aberta, começa a soltar-se o aroma do pão acabadinho de cozer. Está pronto. É hora de comer.

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