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7 objetos com história em Elvas para lá do óbvio

Património da Humanidade, Elvas é uma cidade que encanta o visitante. Ao melhor exemplo da arquitetura militar holandesa no mundo junta-se uma das fortalezas mais inexpugnáveis e o belo aqueduto da Amoreira. Mas quando em Elvas é também bom olhar para os pequenos pormenores. Propomos uma visita a 7 objetos com história, uns maiores outros bem mais pequenos.




Nesta visita diferente há que se estar preparado para olhar para o perto e para o longe, para o chão e para o teto. E para que os momentos perdurem, há que verificar se o telefone ou a máquina fotográfica estão em condições. Depois de o ter feito, fique sabendo que a primeira máquina fotográfica portátil foi inventada ainda no século XIX pela Kodak. E a que propósito vem esta informação?

1 – O protótipo da Kodak

No Museu da Fotografia, em Elvas, João Carpinteiro mostra-nos um objeto muito especial. o primeiro da nossa lista de sete objetos com história. É sua a coleção exibida no bem cuidado museu que conta a história da fotografia a partir das máquinas.

Com o destaque que lhe é devido é mostrado ao visitante um protótipo de uma Kodak One, uma peça de cuja raridade o colecionador só mais tarde se aperceberia, como pode ouvir clicando na seta da fotografia.

No Museu da Fotografia de Elvas não veremos apenas máquinas fotográficas portáteis. Lá se encontram todo o tipo de máquinas imagináveis e de todas as épocas e até os mais recentes modelos de descartáveis, que a coleção começou nos anos 70 mas não tem fim à vista.

2 – A Senhora de Guadalupe

A Sé de Elvas incorpora atrás de si séculos de história. Em 1229, depois de a cidade ter sido tomada por D. Sancho II, a mesquita de bairro que aí existia foi transformada em igreja cristã chamando-se Santa Maria dos Açougues. Depois, quando D. Manuel I decide investir em Elvas pela sua posição estratégica do ponto de vista militar e comercial, Francisco de Arruda, o arquiteto-mor do Reino responsável pela Torre de Belém, é chamado para construir o aqueduto da Amoreira e a nova praça com os Paços do Concelho e a Sé. Do período manuelino já pouco resta, sendo a igreja hoje um belo exemplo do gótico. No seu interior há muito para ver, mas detenhamo-nos na capela à esquerda quando se entra e conheçamos um dos objetos com história.

Imagem da Senhora da Guadalupe
clique na seta laranja para ouvir a explicação de Rui Jesuino e na foto para ampliar

A capela da Senhora da Guadalupe é especial, como conta o historiador Rui Jesuino, por a imagem estar assinada pelo maior pintor do barroco mexicano, Juan Correa, mas também pela história de como chegou até Elvas.

As novenas à Senhora da Guadalupe
As novenas à Senhora da Guadalupe

Além do mais, era à Senhora da Guadalupe que os elvenses pediam quando os períodos de seca se prolongavam. No museu de Arte Sacra da Sé de Elvas, encontra-se um ex-voto expressivo dessa devoção.

Diz a legenda: “Depois de nesta Cidade se fazerem por chuva muitas procissoes, penitencias & novenas, se fez hua diante da Imagem da Sra. de Guadalupe. & no ultimo dia della choveo tanto q serremediou em parte a perda q nos frutos a seca tinha cauzado, o que succedeo em 24 de Abril de 1680 annos“.

3 – Os retábulos de “El Divino”

Retábulo pintado por Luís Morales, "El Divino"
clique na seta laranja para saber como o retábulo foi para Elvas e na foto para ampliar

Ainda na Sé de Elvas, o Museu de Arte Sacra leva-nos da sacristia à bela Sala do Capítulo, do século XVIII. Aqui há que olhar para o Cristo de mármore indo-português e para as pinturas que embelezam a parede. Neste museu é ainda possível ver-se o cálice oferecido ao bispo em 1580 por D. Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, quando o monarca viveu em Elvas.

Numa sala à parte estão expostos três quadros de cinco que compunham o retábulo da capela-mor renascentista original da Sé de Elvas. Estes painéis foram pintados por um dos mais importantes pintores renascentistas espanhóis, Luís Morales, conhecido como “El Divino” pela sua maestria.

El Divino é um pintor prolífero, encontrando-se inúmeros exemplos da sua obra em Espanha, mas em Portugal apenas em Elvas se pode apreciar a sua arte. Apesar de ser natural de Badajoz, o pintor apenas trabalhou uma vez no nosso país. A proximidade ajudou, mas ouve que fazer muito mais para que o retábulo da Sé tivesse a sua assinatura.

Os 10 mais ricos da cidade de Elvas tiveram de largar os cordões à bolsa para conseguirem que o mestre espanhol acedesse em embelezar a capela-mor da Sé de Elvas, como conta o historiador Rui Jesuino.

4 – A sepultura chinesa

Mesmo nas traseiras da Sé de Elvas encontramos a Igreja das Dominicas, parte de um convento de freiras dominicanas. Construída onde anteriormente estava um templo da Ordem dos Templários, a igreja surpreende logo pela planta centralizada e octogonal. Não se sabe se por ter aproveitado a planta pré-existente da anterior do século XIII – então em ruínas – ou se por gosto do arquiteto Diego Torralva, um dos mais importantes do renascimento.

Nesta igreja, depois de se admirarem os estuques originais do século XVI e os azulejos e talha dourada do século XVII, propomos que se olhe para o chão. De entre as várias sepulturas existentes, repare-se numa que não se assemelha a nenhuma outra. É outro dos objetos com história.

É mesmo um caso único em todo Portugal, como afiança Rui Jesuino. A sepultura tem como motivo dois dragões a ladearem um vaso chinês. O historiador explica o porquê de tão inusitada decoração.

Como já tínhamos visto antes com a imagem da Senhora da Guadalupe, constatamos que não terão sido poucos os elvenses que foram à procura de fortuna pelo mundo fora já nesse longínquo século XVI.

5 – O moinho da obra córnea da fortaleza

Subamos ao castelo para lá do alto olharmos para as linhas da fortaleza abaluartada do século XVII que é o melhor exemplo mundial da arquitetura militar holandesa e ponto fundamental para a classificação de Elvas como Património da Humanidade.

Lá em baixo, na paisagem, destaca-se um conjunto de muralha abaluartada que parece sair do desenho original de toda a linha defensiva. E assim é. A obra córnea, ou ornaveque, foi construída poucos anos depois de completada a fortaleza. Os defensores perceberam que no outeiro que o troço muralhado circunda era possível a instalação de peças de artilharia que fustigassem as posições defensivas e decidiram incluí-lo no perímetro defensivo. No centro dessa obra córnea vê-se um moinho sem pás que conta uma história de traições e maus pagamentos.

clique na seta laranja para conhecer a história do moinho e na foto para ampliar
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6 – A ambulância de campanha

No centro da muralha abaluartada está um antigo quartel que hoje alberga o Museu Militar de Elvas. É para lá que vamos e onde podemos visitar uma vasta parte do perímetro fortificado e ficar a conhecer a coleção que se espraia pelas antigas casernas e cavalariças.

Ambulância de campanha que serviu na I Guerra Mundial
Clique na seta para ouvir a explicação do sargento-chefe Camponês e na foto para ampliar

A coleção de arreios militares, hipomóveis, farmácia militar e viaturas do museu militar é extensa e a visita ao total das instalações leva uma boa manhã. Uns gostarão mais de umas coisas, outros de diferentes momentos que o museu proporciona.

Visitar as muralhas da fortaleza e ouvir militares a explicar os ângulos de fogo permite-nos perceber verdadeiramente o engenho da arquitetura militar de que esta é o expoente mundial. Depois, cá em baixo há várias peças que sobressaem, todas elas objetos com história. Uma é a ambulância militar de 1890 que equipou o Corpo Expedicionário Português nos campos de batalha franceses da I Guerra Mundial.

A ambulância representa um ponto de viragem no pensamento dos estados-maiores. Lembra o tenente-coronel Franco que até então os soldados eram deixados no campo de batalha e que só no final do século XIX é que os exércitos constataram que apesar de feridos eram recursos que poderiam voltar a ser utilizados. Mas, conta o sargento-chefe Camponês, fazer parte da tripulação desta ambulância era muito arriscado.

7 – O último reduto do forte da Graça

O último dos objetos com história de Elvas que propomos não é propriamente um… objeto. É antes um maquiavélico sistema defensivo daquela que é considerada uma das mais inexpugnáveis fortalezas de todo o mundo.

Construído já no século XVIII, o forte da Graça veio pôr fim ao único ponto fraco do sistema defensivo de Elvas, o monte Padrasto onde durante a Guerra da Restauração os espanhóis montaram duas baterias de artilharia e daí fustigaram a cidade.

O forte tem três linhas de defesa exteriores e o reduto central onde ficava a casa do governador. Cada uma das linhas permite fazer fogo para as restantes para que o inimigo continuasse a ser fustigado mesmo quando tomasse uma. E é à entrada do reduto central que encontramos o último dos objetos com história que selecionámos para lá do óbvio.

É o último sistema defensivo. Mesmo que o piso térreo fosse tomado, dificilmente os invasores conseguiriam chegar aos andares superiores. Vanda Batista, responsável técnica do forte da Graça, explica o que esperava os inimigos que conseguissem irromper pelo reduto central: uma desagradável surpresa onde se unem tecnologias medievais a outras construídas propositadamente para este bastião.

Um esquema maquiavélico de defesa

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